Estudo de caso I: minha viagem de férias

No quinto episódio de APRESENTAÇÕES COM INKSCAPE, faremos um primeiro estudo de caso, ou seja, uma primeira apresentação “de verdade”, utilizando técnicas desenvolvidas nas aulas anteriores. Mais especificamente, criaremos uma apresentação de slides exibindo fotografias de uma viagem fictícia, utilizando algumas famílias de fontes que façam uma boa composição visual.

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Tópicos abordados nesta aula

  • Trabalhando com metadados
  • Incorporando imagens
  • Recortando imagens através da propriedade clip
  • Agrupando e desagrupando objetos
  • Obtendo cores de um objeto através da ferramenta conta-gotas
  • Técnicas para obter contrastes de cores

Fontes utilizadas neste episódio

Imagens utilizadas neste episódio

Questões de tipografia

No quarto episódio de APRESENTAÇÕES COM INKSCAPE, trabalhamos com importação de fontes externas, aprendendo a aprimorar a tipografia de nossas apresentações. Também aprendemos a converter textos em caminhos, para garantir a exibição correta de nossos elementos visuais.

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Tópicos abordados nesta aula

  • Editando textos
  • Discutindo exibição de fontes não instaladas no sistema
  • Importando fontes externas via estilos css
  • Adicionando estilos no arquivo svg
  • Convertendo textos em caminhos editáveis

Fontes utilizadas neste episódio

Trabalhando com imagens

No terceiro episódio de APRESENTAÇÕES COM INKSCAPE, aprendemos a inserir imagens em nossas apresentações — discutindo diferenças entre incorporação e vínculo —, comentamos um pouco sobre resoluções adequadas aos documentos e aproveitamos para aprender novas funções do Jessyink.

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Tópicos abordados nesta aula

  • Obtendo imagens de qualidade
  • Inserindo imagens através de vínculos
  • Inserindo imagens através de incorporação
  • Reduzindo as dimensões de uma imagem (criação de thumbnail)
  • Alinhando objetos
  • Duplicando objetos
  • Cortando imagens: aplicando clip em bitmaps
  • Aplicando efeitos de exibição do Jessyink

Primeiros passos com o Jessyink

No segundo episódio, demos os primeiros passos com a interface do Inkscape, aprendendo a utilizar algumas ferramentas de criação de objetos e a alterar as propriedades do desenho. Também começamos a explorar o Jessyink, criando uma apresentação provisória para verificar algumas particularidades do script.

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Tópicos abordados nesta aula

  • Alterando as propriedades do desenho
  • Navegando pela página
  • Criação de formas e textos
  • Trabalhando com camadas
  • Instalando o JessyInk
  • Editando slide mestre
  • Trabalhando com auto-textos
  • Visualizando a apresentação no navegador

Apresentação do Inkscape e justificativas para o curso

Olá, seja bem vindo à primeira aula de um novo minicurso no site: apresentação de slides com Inkscape!

Esta pequena série de vídeos pretende te ensinar a desenvolver excelentes apresentações de slides utilizando o Inkscape, uma ferramenta open source voltada à criação e edição de imagens vetoriais.

Ao longo dessas aulas você aprenderá, através de tutoriais, a montar uma apresentação funcional, leve e com recursos interessantes, seja para uma aula, uma pesquisa, o lançamento de um produto em sua empresa ou o que mais vier a calhar.

Neste primeiro vídeo, explicamos em linhas gerais o que é o Inkscape, que tipos de arquivos costuma gerar e de que maneira ele nos pode ser útil. Também mostramos as justificativas do minicurso, pontos positivos e, evidentemente, pontos negativos.

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Sobre a partida

Imagem de capa: Jeremy Geddes, “Ascent” (2014), óleo sobre tela.

(Originalmente publicado em alguma rede social)

“o mestre gira o globo
balança a cabeça e diz
o mundo é isso e assim
livros alunos aparelhos
somem pelas janelas
nuvem de pó de giz”
— Paulo Leminski

Há um bom tempo uma ideia ronda a minha cabeça. Eu chamo de ideia por falta de uma palavra mais apropriada – um pensamento, um algo abstrato, uma massa disforme sem muita coerência começo meio fim. Mas como toda delonga um dia finda, me parece oportuno tentar compartilhar este devaneio e, quem sabe?, deletar um item do arquivo crises.txt. Economizar na terapia é preciso.

Direto ao ponto: eu não sei lidar com a partida. Não sei me despedir. Não encaro muito bem a ideia de uma perda, qualquer seja ela, talvez pela negação da existência que ela carrega consigo. Como se o fato de algo chegar ao fim implicasse em dizer que seu efeito é o mesmo que teria sido obtido se aquilo nunca tivesse existido.

Labent
Jeremy Geddes—”Labent” (2014), óleo sobre tela

É, eu sei. É uma ideia bastante idiota. E incoerente. Mas.

Geralmente as pessoas se referem a perdas na morte de um parente; no término de um relacionamento; no encerramento de um emprego. E assim por diante. E eu não quero soar [ainda mais] dramático em colocar no mesmo patamar as despedidas necessárias quando um ciclo chega ao fim. Por exemplo, quando vejo os alunos indo embora para suas novas velhas vidas sem nenhuma participação minha mais. Aquilo faz parte do vínculo que estabelecemos, é sabido desde o início e, mais importante, é necessário. Porque a ideia de um “bom” professor é tornar o aluno capaz de não precisar mais dele.

A ideia de um “bom” professor é tornar o aluno capaz de não precisar mais dele

Eu queria ter me despedido de vocês. Em vários momentos da minha vida. Chegar na sala de aula, encostar na mesa e dizer-lhes para abraçar o mundo. Que mais uma fase começa, como tantas outras já vieram e tantas mais ainda virão. Dizer que essa vida é um saco, mesmo, mas não precisa ser assim. Dizer que vocês não são especiais – porque o mundo é cruel com aquele que se julga importante demais. Dizer que vocês não são perdedores – porque o mundo se alimenta dessa fraqueza de espírito e vai carregando pessoas por aí feito uma onda lamacenta. Dizer que vocês já sabem dessas coisas todas, eu já sei dessas coisas todas, mas ao mesmo tempo não sabemos de quase nada. Tenho colegas que são bem melhores nisso e deixo para eles essa tarefa inglória.

Jeremy Geddes—’A quiet heaven’ (2014), óleo sobre tela

E nessas de não saber nada aprendi um capinzal de coisas com todos. Aprendi que aquela pedra preta de gelo duro que eu dizia haver no peito não passava de uma fenda que nunca enganou ninguém. Um buraquinho que a gente foi preenchendo com uma série de ideias, frustrações, tentativas, avanços, retrocessos. Por mais que eu não seja uma pessoa de esperanças, ambições e tudo o mais, acho que aprendi a adotar alguns de seus ideais e levar a vida junto.

O mundo é cruel com aquele que se julga importante demais

Vejam: nunca pretendi adotar qualquer discurso sobre o que é a vida lá fora. Exceto quando divaguei verborragicamente em linhas parecidas. Confesso que gostaria de ser aquela pessoa capaz de lhes dizer coisas inspiradoras. Sobre o sucesso, sobre a realização profissional, sobre a felicidade, sobre a Vida de Verdade. Mas seria um pouco falso de minha parte. E pretensioso. Como se eu fosse o detentor de algum conhecimento elevado que essa minha “experiência” permitiu concluir.

Isto tudo pode acontecer. Tenho uma convicção de que acontecerá. Conheço o potencial da grande maioria de vocês e sei que serão capazes de montes de coisas. Para não cair no discurso vazio do “você consegue”, digo-lhes, enfim: sejam honestos. Acima de tudo, consigo mesmos. Busquem alguma coisa que vocês queiram. Busquem querer coisas. Porque, se aprendi algo nesta minha ~longa trajetória de vida~ é que é muito difícil querer coisas. A gente quer tudo, ao mesmo tempo em que parece não ter forças para nada.

Acima de tudo: permitam-se errar. Errar é preciso, é necessário, faz parte do processo de aprendizagem. Esta é, talvez, uma das lições mais importantes que a escola pode te dar. Não sei se consegui ensiná-los isto e dessa forma, mas era uma das grandes pretensões. E sei que demonstro, muitas vezes, agir de maneira contraditória, uma vez que também não sei lidar direito com meus erros; o que significa que eu continuo aprendendo.

Jeremy Geddes—’There is glory in our Failure’ (2014), óleo sobre tela

Minha bagagem só cresce com o tempo. É recheada de conversas, aprendizados, ensinamentos, novas pessoas e, obviamente, piadas internas. Muitas piadas internas. Tantas que torna-se impossível — para não dizer chato — redigir uma lista  de tudo o que se passou até o momento. Porque o professor Pedro é um vacilixo, que pensa tocar bateria mas na verdade apanha musicalmente pra aluno em festival escolar. No final do ano letivo, ameaça estudantes com uma paródia de Gandalf, dizendo: você não vai passar. É incontável o número de montagens e fotos fora de contexto espalhadas pela internet, geralmente relacionadas com seus cabelos, seu mal-humor diário ou a falta de dicção para pronunciar palavras simples, tais como “aceleração” e “proporcionalidade”. Para mostrar como não tem personalidade, basta reparar no óbvio ululante: copiou Wesley Safadão — e tentou cantar isto frente a uma plateia atônita e levemente envergonhada. Não fosse o suficiente, chegou a forjar seu próprio sumiço, deixando preocupados até os pais de alguns alunos, que ofereceram ajuda policial e consultoria com detetive particular — e era só mais um plano para engrandecer uma atividade escolar. Então, realmente, fica difícil montar uma lista frente a essa enxurrada de vacilo.

Minha vida é uma Escolinha do Professor Raimundo eterna.

Provavelmente eu não verei mais boa parte de vocês. Talvez nos cruzemos na rua, num parque, num shopping. Porque é isto que a vida é, e é assim que deve ser. Se eu pudesse dar a “última aula”, ela teria duração de alguns minutos e consistiria numa mensagem bastante simples: tenham certeza de que lembrarei de vocês. E espero que algum dia vocês tropecem num fiapo de memória distante daquele professor cabeludo magrelo barrigudo estranho de barba de bode que faz barulho esquisito porque não controla uma sala com 87 alunos e gosta de desenhar na lousa em momentos aleatórios e precisa dar aulas apertando uma bolinha terapêutica para controlar o stress evitando assim o famoso processinho. Ou quaisquer outras lembranças que vocês quiserem.

Porque haverá um monte delas. Nem todas serão importantes. Ou relevantes.

Mas todas elas serão verdadeiras.

Um abraço. Um aperto de mão. Um sorriso.
E até breve, amig@s.

Impulso e quantidade de movimento

Nesta aula, voltamos a focar nossa atenção nas leis de Newton, observando não somente a interação entre corpos, mas também a duração dessas interações. Para tanto, definimos duas novas grandezas físicas: a quantidade de movimento (ou momento linear) de um corpo, que é entendida como o produto de sua massa e sua velocidade num dado referencial; e o impulso de uma força, definido como o produto desta pelo intervalo de tempo em que ela atua. Essas grandezas são particularmente úteis para o estudo da colisão entre corpos, tema que encerra os estudos desta aula. Confira os slides utilizados em aula, veja os vídeos nos materiais adicionais e, como sempre, bons estudos!

Estática dos fluidos

Estudantes de plantão! Nesta aula, estudaremos equilíbrios em líquidos. Para tanto, precisaremos definir novos conceitos, como por exemplo a ideia de pressão, bem como revisar conhecimentos anteriores, tal como a definição de densidade de substâncias. Também explicaremos o funcionamento de prensas hidráulicas, entenderemos um pouco melhor o que é essa tal de pressão atmosférica e estudaremos a flutuação de corpos, sejam eles rolhas de cortiça, navios ou nuvens gigantescas.

Colcha de retalhos

As imagens que ilustram esse post são de Eric Lacombe.

Eu não era uma criança sociável demais; sociável em certa medida, no sentido de dar oi e tchau, pedir licença, desculpa, sorrir quando necessário. Mas sempre naquele nível mais superficial. Meu lance, de verdade, sempre foi a introspecção. Acredito que meu problema de audição reduzida tenha contribuído para isto.

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Confesso que recordações da infância me parecem muito distantes. Lembro-me de um detalhe ou outro, algum episódio marcante, seja pela beleza ou pela vergonha. Contudo, um traço já era presente e me acompanha até então: o mundo de dentro sempre foi muito mais interessante do que o mundo de fora. Assim, era difícil atuar neste mundo externo, uma vez que suas regras e convenções sociais são ditadas pelos outros, não por mim. Aprendi como qualquer aluno aprende as coisas, no momento inicial: copiando o que as pessoas ao meu redor faziam.

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Vamos pular vertiginosamente para frente no tempo, com meus primeiros empregos. Uma criança notoriamente fechada, com dificuldades de se expressar em público, constantemente atingida pela timidez — facilmente percebida pela explosão de rubor em sua face — em qualquer tipo de evento social, escolhe para sua carreira: lecionar. Ótima escolha. Colocar-se na frente de uma plateia altamente exigente e passar a palestrar sobre algum tema qualquer, relevante ou não na concepção daquele público, exigindo também sua concentração e atenção dirigida. Minha vida inteira baseada em “não olhe para mim” e agora, pasmem, necessitando que olhem para mim.

Ainda tínhamos mais problemas neste ínterim. Eram também os que mais me assustavam quando comecei a trabalhar: como conversar com meus colegas de trabalho? Porque, na minha cabeça, eu precisava falar com adultos; e aí vinha aquela pergunta: eu sou adulto? Eles me consideram já adulto, um jovem adulto, um adolescente tardio, uma criança afinal? Vejo, hoje em dia, que isto pode ser resumido como uma problemática da imagem: aquela que eu faço de mim, a que os outros fazem de mim e aquela que acredito que os outros façam de mim.

E é assustador pensar nisso; e é assustador ainda pensar nisso. De todo modo, hoje em dia esse tipo de pensamento adquiriu outras nuances e um caráter diferente — tem mais relações com uma identidade do que com uma imagem aparente. No que tange ao início da carreira profissional, precisei aprender a me portar como as pessoas ao meu redor se portavam. E aí começa toda uma brincadeira de cópias, simulacros, retificações e ratificações. Eu olhava como as pessoas falavam, gesticulavam, riam, se portavam. Internalizava esses gestos, observava mais um pouco e, com uma certa dose de desconfiança, reproduzia aquilo da minha maneira.

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Muitas das expressões que utilizo em meu cotidiano foram copiadas de alguém que disse para mim, ou alguém que vi dizendo, às vezes somente li em algum lugar. Os jargões, bordões e frases de efeito utilizadas em sala de aula também tiveram, em sua maioria, origens com outros professores com quem trabalhei ou estudei. Conforme o tempo foi passando, sofreram suas mutações naturais, evoluindo para algo mais próprio ou morrendo no meio do caminho — uma espécie de darwinismo cultural.

Contudo, eu não era um mero papagaio sem expressão própria e, mais importante, aprendi a diferenciar entre um comportamento aceitável e uma postura errada. Porque essa me parece uma daquelas lições importantes que esperamos aprender em algum momento: nossa vida é a soma de outras vidas. Dizendo de outro modo, aquilo que entendemos como nossa própria personalidade é uma espécie de colcha de retalhos de outras personalidades, que escolhemos costurar para si. Sem nem perceber, fazemos isso a vida toda — e é exatamente assim que a criança aprende suas primeiras coisas, com os pais, os avós, as pessoas mais próximas e, futuramente, com a escola. Por isso, dizer que “professor não é educador” me soa bastante ingênuo — mas tenho algumas ressalvas, então deixemos para outro episódio dessa temporada.

Não somente de impressões sobre o mundo, fazemos cópias de expressões sobre o mundo, nossas atitudes: as falas, os gestos, as piadas, as idiossincrasias, modos de agir em geral. Isto exige uma vigilância constante, pois estamos fadados a estarmos errados. Então, não é inerentemente ruim estar errado; ruim, mesmo, é não perceber-se errado e, ainda pior, não agir para que isto seja modificado.

 

Um curso regular de ciências é quase como uma boa série televisiva

Costumo brincar com os alunos, vez ou outra, sobre estarmos na Nª temporada de Física [nomedaescola], aproveitando a situação para discutir alguma ideia sobre esse universo estranho que a Física pode ser. É uma maneira ~divertidinha~ que a gente inventa nuns dados momentos das aulas para fazer menção àquele personagem da temporada passada, que todo mundo pensou ter morrido mas apenas esteve desaparecido numa floresta, se alimentando de frutos e restos animais, ou para deixar um pequeno spoiler sobre um casamento muito bizarro que vai ocorrer dentro de algumas semanas, entre duas personagens visualmente bastante distintas.

Traduzindo para o universo da Física, trata-se de um recurso narrativo para relembrar algum ente físico estudado em aulas anteriores, bem como mencionar que, em aulas futuras, aquilo que está sendo estudado no momento voltará a ser mencionado, numa fusão de ideias e de conceitos.

Você pode até me dizer que isto é típico do professor faceirão de cursinho, que leva o violão pra sala de aula e mostra sua mais nova paródia da música Yesterday, dos Beatles — supostamente uma maneira lúdica e inovadora de ensinar o conceito de reação química para alunos do primeiro ano do ensino médio. Mas existe uma boa gama de paralelos e aproximações que podemos traçar entre um curso regular de ensino e uma boa série — daquelas que a gente comenta com os amigos em ocasiões festivas e evita as redes sociais para não se deparar com possíveis informações soltas que preferíamos não ter acesso antes de assistir ao episódio.

Ao meu ver, existem duas características matadoras presentes nas melhores séries que nós, jovens adultos, presenciamos nos últimos anos:

1 — Uma boa série sabe, desde seu começo, para onde está indo.
2 — Uma boa série, apesar de bem contada e “bem explicada”, nunca é fechada em si mesma.

E acredito que isso tenha muito a ver com um curso regular de qualquer coisa que seja. Para fins de entendimento, vou utilizar como base um curso de Física do ensino médio, por ser algo mais próximo de minha vivência. Mas acredito que valha para qualquer outra área de conhecimento, em qualquer nível de ensino. Fiz uns testes mentais — de 13 segundos — com português do ensino fundamental I e funcionou bem.

(Todas as histórias de terceiros são fictícias e nenhum animal foi ferido para a redação deste documento.)

Uma boa série sabe, desde seu começo, para onde está indo

O tempo é um círculo plano, amigo

Em toda série televisiva, existe uma equipe razoavelmente grande que cuida de vários detalhes sobre a produção daquele conteúdo. Dois desses papéis importantes são o do roteirista, ou da equipe de roteiristas, e do diretor. Sendo um roteiro novo ou adaptado, pouco importa; o material será trabalhado de modo a traçar um fio condutor para a narrativa, levando em consideração elementos inerentes daquele tipo de mídia. Afinal, não é somente uma história, como consta num livro; ela possui elementos visuais em movimento. Ademais, sua característica episódica e seriada também é fundamental para contar algo a alguém.

No início da jornada, a produção já conhece seu fechamento

Isso significa dizer que aquela história possui um objetivo. Ela tem início, fim e meio. E aquilo que considero fundamental: no início da jornada, a produção já conhece seu fechamento. Pode ser que, no meio do caminho, o espectador sinta-se perdido. Isso é normal e, na maioria dos casos, desejado pela série. Faz parte de uma trama envolvente aquela boa dose de mistério, uma certa aura de insegurança: a série está te conduzindo — às vezes pela mão, noutras andando alguns passos à frente.

Um bom curso escolar pode se parecer com isso. Além do planejamento anual, feito no início do ano letivo, existem sequências didáticas abrangendo um número determinado e específico de aulas — não há um número fechado; podem ser 2 ou 20 aulas, a depender do que foi programado. Isto significa dizer que também há um objetivo ali; o que o professor está dizendo, contando, mostrando, pedindo, construindo etc é uma peça desse quebra-cabeças. Como o “roteirista” dessa série, ele têm às mãos muito mais dados do que seus alunos. E, atuando como “diretor” da peça, constrói a teia narrativa que permite aos alunos-espectadores compreender a trama subjacente e construir, por si mesmos, sua própria estória.

Não adianta simplesmente entregar os fatos porque eles não são um dado pronto; precisam ser internalizados pelo aluno. No meio do processo, o professor-diretor percebe que a plateia encontra-se confusa; afinal, estamos passando por um momento delicado, porém importante, escrito pelo professor-roteirista. Uma boa direção conduz o foco do espectador para aquilo que considera importante. O professor-diretor auxilia os alunos relembrando de dados importantes, fazendo-os notar o que parecia escondido.

Pessoalmente, não gosto do excesso de didatismo que encontramos em muitas obras cinematográficas por aí. Essa seria uma grande diferença entre um bom diretor-professor e um bom diretor-de-cinema. Para o primeiro: quanto mais didático, melhor. Já no segundo caso, é bom evitar: o espectador quer pensar sozinho — mostre, não conte. Mas isso foge um pouco de nosso escopo.

Uma boa série, apesar de bem contada e “bem explicada”, nunca é fechada em si mesma

We all get what we deserve

As pessoas gostam de explicar as coisas. Sentir-se ignorante sobre algo nos causa desconforto. Queremos saber o quanto antes, o mais rápido possível, de forma a responder corretamente quando formos questionados, esboçando o sorriso da vitória. Assim, é fácil entender porque muitos espectadores ficam extremamente irritados com pontas soltas ao final da jornada.

Existem situações nas quais esses espectadores têm razão. Algumas séries deram enormes barrigadas, inventando uma miríade de mistérios sem fim, numa espécie de encheção de linguiça que, além de não serem funcionais para a trama, possuíam uma característica gravíssima: não havia explicação alguma. Os fãs defensores dirão que não é bem assim, que poderia haver diferentes interpretações e tal; mas aposto que após algumas rodadas de jägermeister com os roteiristas minha tese se provaria verdadeira: essas pistas falsas eram apenas um recurso para prender a plateia. E nada mais.

Contudo, pontas soltas não são necessariamente um “estelionato cinematográfico”. Eu diria que são mais comuns do que parecem. Ademais: têm mais valor do que julgamos.

Ao contar uma boa história, nem sempre temos oportunidade de explicar todas as relações entre diferentes fatos. Existe um fio condutor contendo a narrativa principal. Ele é entremeado de outras linhas, que ajudam a tecer o argumento, além de dar corpo e textura. Essas linhas alternativas possuem também seus desdobramentos, já que não se tratam de meras “muletas de roteiro”. Tais desdobramentos fazem parte de universos próprios, externos àquele da história sendo contada. Cabe ao espectador se aprofundar nestes universos, se assim desejar.

Buscar universos paralelos ajuda o espectador a construir novas histórias. As suas histórias.

Algumas perguntas ficarão sem respostas. E não há problema algum nisso

Ocorre algo parecido num curso escolar. O professor tem por objetivo fazer seus alunos aprenderem uma série ferramentas cognitivas e dominarem uma determinada gama de conhecimentos. Não é possível, porém, dar conta de tudo. Algumas perguntas ficarão sem respostas. Até mesmo porque, diferentemente dum seriado televisivo, cursos escolares possuem duração limitada, estabelecida e curta — o leitor poderia argumentar que seriados de TV também possuem suas limitações de produção, mas concordemos que possuem muito mais flexibilidade do que um Ensino Médio.

O estudante que se cativou pelas aulas-episódios, que conseguiu se deixar levar pela direção de seu professor, certamente se deparou com essas pontas soltas de universos paralelos. Algumas perguntas conseguiu fazer, obtendo respostas mais ou menos vagas. Noutras, não teve sorte, pois não era o momento certo. Mas a semente da busca ali se instalou; agora, passou de um simples espectador passivo para um conspirador ativo. A série-curso chegou ao fim, mas os ensinamentos são eternos.

Quem sabe até mesmo passará a escrever novas histórias para novos estudantes.

Um último adendo: espectador ou protagonista?

Por fim, é importante frisar que, nesta comparação entre curso escolar e série televisiva, o aluno está sendo considerado um espectador; sua participação reduz-se, portanto, a assistir, não fazendo parte da produção daquela obra audiovisual.

Não é essa a maneira que julgo mais adequada de trabalhar. Reduzir o aluno a um mero espectador passivo, sem opiniões e contribuições a dar, é matar sua curiosidade científica. O aluno deve, sim, fazer parte dessa produção. Mesmo que isto não ocorra o tempo todo, por uma série de razões, devo buscar maneiras de viabilizar este processo.

Numa postagem relativamente antiga, comentei sobre um texto do professor Luis Carlos de Menezes, professor e orientador na pós-graduação na USP. No artigo Aulas-cenas, publicado na primeira edição da Revista Magistério, Menezes faz uma comparação entre uma aula, ou conjunto de aulas, e a realização de um filme ou espetáculo teatral:

As aulas são as cenas, as etapas são os episódios e o filme é a realização de todos. Os alunos são a um só tempo os intérpretes, os iluminadores, os câmeras, partícipes ativos da obra coletiva de aprender. As primeiras aulas servirão para a preparação do elenco, as seguintes são como ensaios, até que todos possam participar para valer da filmagem do que foi previsto no roteiro.

Na proposição das atividades que constroem o aprendizado, a professora ou o professor tem, sobretudo, a função do produtor, mas, em cada aula, eles dirigirão as cenas e seus alunos serão seus protagonistas e coadjuvantes, o espetáculo formativo sendo ainda melhor se todos fizerem conscientemente seus papéis.

Contudo, a proposta deste texto que hoje escrevo é discorrer sobre um dos aspectos de uma aula. Em alguns momentos o aluno acaba, sim, atuando como espectador. Em alguns momentos isto é, sim, desejável, pois faz parte da construção de uma narrativa.

Não precisa ser assim o tempo todo. Mas também não é demérito que, às vezes, assim o seja.

Algumas séries, assim como alguns professores, não são tão boas assim

Existem séries boas, existem bons professores. Em um esforço imaginativo, podemos comparar professores com certas séries famosas que, por um motivo ou outro, não são lá grande coisa. Algumas prometeram muito mas morreram na praia, outras são ruins de dar dó e algumas… bem, a gente meio que atura porque sim. Vejamos alguns exemplos.

O professor ‘Lost’

“Prófeshow” das aulas mirabolantes que não chegam em lugar nenhum
Imagem de Jack, da série televisiva 'Lost', produzida pela ABC
Eu não tenho a menor ideia do que tô fazendo aqui, véi.

Alguns professores são muito queridos pelos alunos. Podemos pensar no caso daquele que chega na escola já cativando a galera com sua simpatia, energia, animação, seu jeito todo extrovertido e especial de dar aulas. Em outros momentos, conta fatos super interessantes sobre a ciência, narra eventos históricos, cria uma atmosfera de mistério e suspense. Exibe vídeos, filmes, entrevistas, toca tambor, assa uma pizza e ensina a tricotar bolsa de barbante.

No meio da euforia, os alunos começam a se perguntar: mas como ele pretende juntar tudo isso? Qual é o objetivo dessa montanha de dados para o curso que ele está lecionando?

Pois bem: não há objetivos. Esse professor não tem a menor ideia de onde quer chegar. No meio do caminho se empolgou demais, perdeu o controle e agora estuda maneiras de voltar no tempo sem ninguém reclamar muito. Suas provas cobram capítulos do livro que não foram discutidos em aula, pois a turma estava ocupada cantando kumbaya no pátio.

Lost foi uma premiada e aclamada série de televisão norte-americana de drama e ficção científica que seguiu a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical, após o avião que viajava de Sydney, Austrália para Los Angeles, Estados Unidos cair em algum lugar do Oceano Pacífico. Produzida pela ABC Studios, teve 6 temporadas, sendo exibida entre 2004 e 2010. (Wikipédia)

O professor ‘Dexter’

Começa muito bem mas acaba muito mal
Personagem Dexter, da série homônima, produzida pelo Showtime
Que morte horrível.

Essa é uma história levemente trágica, então maneiremos do humor ácido.

Um professor maravilhoso, amado por seus alunos, querido pelos colegas e a joia rara da instituição. Bem assentado em sua carreira, tem um início promissor, rapidamente conquistando o respeito das pessoas a seu redor. É funcionário exemplar e dedicado, sabe o que está fazendo e tem domínio técnico sobre sua área de atuação. Ética impecável. Estética admirável.

Mas aí acontece alguma coisa qualquer — ex.: cansou de lecionar; entrou em conflito com os gestores da escola; apercebeu-se da finitude da vida e de nossa insignificância perante o universo etc etc — e tudo desanda de um jeito desastroso. Passa a faltar com seus compromissos, muda completamente de aparência e torna-se irreconhecível. Sua postura, outrora amável, agora é taciturna. Toma decisões equivocadas, sem sentido; o que aconteceu com aquela alma iluminada que tanta esperança nos dava? As pessoas passam a evitá-lo e falar mal de sua pessoa nos corredores.

Em poucos momentos de lucidez, até percebe a situação delicada na qual se encontra, tentando resgatar o pouco de respeito que ainda possui. Em vão; não possuindo mais nenhum resquício do famigerado brilhantismo apresentado no início da carreira, desiste de vez e chuta o pau da barraca.

No último ano atuando como professor, usa a mesma blusa surrada para trabalhar, todos os dias. Faltando duas semanas para o término do período letivo, vende sua casa e não aparece mais, sem avisar ou prestar contas. Hoje trabalha num sebo no interior do estado e conta as horas para a chegada do domingo.

Domingo é dia de jóquei.

Dexter foi uma série televisiva americana de drama/suspense centrada em Dexter Morgan que, valendo-se do fato de ser um especialista forense em análise sanguínea e de trabalhar no Departamento de Polícia de Miami, mata, de um modo bem meticuloso e sem pistas, criminosos que a polícia não consegue trazer à Justiça. Produzida pelo Showtime, teve 8 temporadas, exibidas entre 2006 e 2013. (Wikipédia)

O professor ‘How I Met Your Mother’

Engraçadinho e bobinho; a gente até atura, mas sabe que não é lá grande coisa
Imagem de da série televisiva 'How I Met Your Mother', produzida pela CBS
Quanto falta pra bater o sinal?

Esse tipo de professor costuma dividir a turma em duas facções diametralmente opostas: ou você a m a (miga me dá um tiro essa série é mara) ou você odeia. Existe também a galera que não tá nem aí, mas esses são muito espertos para serem figurantes em um texto supostamente engraçadinho, então vamos deixar para lá.

Costuma ser o professor engraçadão, cheio das gags e piadinhas prontas. Faz graça consigo mesmo e com os outros, nunca tendo medo de ser feliz. Alguns acham engraçado, os fãs sempre dão risadinhas, aqueles que não suportam viram os olhos a cada sílaba proferida — dizem que ele é forçado e fica copiando os outros. De vez em quando, um pequeno grupo vai à coordenação reclamar que o projeto de Bozo não tá dando aula e só fica contando piada. O coordenador dá de ombros; ele traz matrículas, deixa pra lá e volta pra sala, beijo.

No final das contas, é inócuo; pode não ser a melhor coisa do mundo, mas consegue carregar o curso e não faz estragos. Poucos se lembram de cumprimentá-lo no baile de formatura.

How I Met Your Mother foi uma premiada sitcom americana que mostrava Ted Mosby, em 2030, narrando aos seus filhos a história de como conheceu a mãe deles. Produzida pela CBS, teve 9 temporadas, exibidas entre 2005 e 2014. (Wikipédia)

O professor ‘Doctor Who’

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Essa série não acaba nunca mddc

Sabe aquele professor que demora para se aposentar?

Então.

Doctor Who é uma série de ficção científica britânica que mostra as aventuras do Doutor, um Senhor do Tempo, alienígena do planeta Gallifrey, explorando o universo em sua máquina do tempo, uma sensível nave espacial conhecida como TARDIS (Time And Relative Dimension(s) In Space), cuja aparência exterior se assemelha a uma cabine de polícia londrina de 1963. Produzida e transmitida pela BBC desde 1963 possui, até o fechamento dessa edição, 36 temporadas. (Wikipédia)

* * * * *

E você, consegue imaginar outros tipos de ‘professores seriados’? Deixe sua opinião nos comentários!