A necessidade de andar

Existe uma necessidade, quase que urgente, em escrever. Durante boa parte da minha vida me empreendi a escrever, o tempo todo, sobre todas as coisas, qualquer coisa; muitas vezes sobre nada, histórias inventadas, sem personagens, começo ou fim. Era uma maneira de colocar ordem no cotidiano caótico, ou desordenar a realidade cartesiana. Cada escrita no seu momento de necessidade.

Atualmente, essa necessidade é acadêmica: minha dissertação de mestrado exige que eu seja um bom leitor e, consequentemente, um bom escritor. Não somente para escrever a dissertação em si, mas para realizar reflexões, fichamentos, anotações, sínteses, resumos. Eu preciso ser um bom escritor para me tornar melhor leitor. Eu preciso ser um bom escritor para me tornar um bom pensador. É causa e consequência, ao mesmo tempo. É tudo o tempo todo.

Não gosto muito de clichês. Eles sempre me pareceram muito vazios, uma banalização da verdade. Como se eu pudesse condensar em uma frase um pensamento demasiadamente grande. Além daquela sensação HIPSTER de que, se todo mundo está usando, eles estão usando da forma errada. Um pensamento incrivelmente reacionário e rançoso. Porque, se pararmos pra PENSAR, por míseros quatro segundos, a realidade é totalmente oposta. Parafrasearei uma conversa entre os amigos Daniel Galera e André Conti, a respeito de tatuagens.

Sei que é um clichê, mas o próprio DFW [David Foster Wallace] era defensor do valor dos clichês, desde que bem empregados. Os clichês tendem a guardar verdades profundas, o problema é que eles, sozinhos, raramente expressam a verdade profunda porque, enfim, são clichês. Mas um clichê aplicado criticamente, ou comentado e contextualizado, pode ser um recurso poderoso. Eu gosto do “This is water”. Funciona como um interruptor pra desligar a autoconsciência e o egoísmo automático.

Tudo isso para relembrar daquilo que vovó dizia: “fazer [tal coisa] é que nem andar de bicicleta: depois que a gente aprende, a gente nunca esquece”. É verdade, isso. Primeiro, pedalamos com rodinhas, junto com a mãe ou com o pai, numa rua tranquila, preferencialmente no parque. As primeiras pedaladas são tímidas, receosas, assustadiças; feito os movimentos da gata que mora no meu quintal mas ainda não quer me amar — ainda. Com o tempo, pedalamos vigorosamente, alucinadamente, de forma que mamãe ou papai nos dizem: agora vamos tirar essas rodinhas e ver no que dá.

“E ver no que dá”. Soa sádico, não? Não. Porque a gente nunca sabe no que as coisas vão dar. A mãe e o pai não sabem como o filho vai ser. Eles não têm como saber e nem devem saber. A graça toda, acredito eu, pode estar aí: no processo de descoberta. Os pais aprendem a ser pais enquanto os filhos aprendem a ser filhos.

Mas isso é conversa pra outra hora.

Uma vez que você tenha se tornado um ciclista, a prática constante te levará a ser um ciclista cada vez melhor. Ou, na pior das hipóteses, um ciclista da mesma qualidade. Ninguém regride enquanto executa uma ação; ninguém retrocede um degrau se estiver caminhando no mesmo patamar.

A analogia é válida para [quase] todas as coisas, acredito. Inclusive escrever. Porque, depois de muito tempo sem escrever nada — não entram na conta conversas via chat, e-mail, social medias e afins — ficamos com a desagradável sensação de “eu não sei mais escrever, me enterrem”. O pensamento se afoga dentro da própria cabeça e, após escrever a primeira frase, tudo já se foi. Nada mais sai. Resmungamos impropérios, coçamos a cabeça, batemos a perna, tamborilamos os dedos nervosos na mesa.

Faz parte do processo. A retomada é sempre difícil. A ressaca é sempre muito ruim.

Por isso, talvez, estou colocando para mim mesmo um novo desafio: continuar escrevendo. Todos os dias. Seja lá o que for. Sobre qualquer coisa: fichamento de um novo capítulo, resenha de um filme, comentários sobre política, críticas aos comportamentos da sociedade; não importa. Qualquer coisa. Escrever cada vez mais para escrever melhor.

Porque não é só a minha carreira que demanda isso. A minha própria existência sente essa necessidade.

  • domovique

    Tou fazendo um curso de criação literária (que comecei mais pra tentar matar créditos na uni, confesso) e o que mais apareceu nas leituras teóricas foi a sugestão de escrever por clareza mental, pra manter as coisas rodando, pra ajudar a criar sentido(s) muito antes (e independentemente) de qualquer intenção de genialidade/criação. Gosto principalmente da sugestão de cadernetas, que tento colocar em prática. Um desses ensaios passado faz uma analogia entre escrita e ~viagens~ e conclui dizendo que os escritos que uma pessoa chega a publicar são meros cartões postais enviados dos “lugares” por onde ela passou ao longo das décadas, e isso é tri bonito de se pensar.

    • Eu já cheguei a tropeçar em orientações desse tipo. Algumas, inclusive, davam dicas de como escrever melhor, mapas mentais, bilhetes pela casa, cadernos no bolso, ao lado da cama — principalmente numa época em que estive manifestando interesse em sonhos lúdicos, mas a parada era tão cansativa e eu sou tão sem sistemas pra isso que me desanimei e mandei tudo às favas — e afins.

      Gosto particularmente da ideia de cadernetas. Acho incrivelmente elegantes, bonitas e úteis. Mas prezo muito a parte estética, de verdade; piro em sketchbooks, daqueles com desenhos escritos rabiscos folhas cabelos e por aí vai. Só que aí a gente esbarra numa coisa que tem me complicado muito ao longo desses anos (e sobre a qual ainda pretendo escrever): caligrafia. De uns anos pra cá, paira em mim uma sensação de que, pasmem!, minha letra só fica boa mesmo numa lousa. Não consigo mais escrever direito no papel. E tenho uma convicção forte de que isto seja de ordem psicológica, mesmo. Li coisas a respeito mas elas se perderam na linha do tempo. Parece-me que a minha caligrafia está ruim porque TITUBEIO demais na hora de escrever. Algumas letras me estagnam. A escrita torna-se vacilante, trêmula, indecisa. E isso me irrita. E eu não consigo escrever mais do que alguns pares de linhas. Mas, hein, é nesse nível. Uma das coisas a serem notadas e aperfeiçoadas nessa maquininha que chamo de Eu.

      Agora, vamos citar

      “os escritos que uma pessoa chega a publicar são meros cartões postais enviados dos ‘lugares’ por onde ela passou ao longo das décadas”

      e concluir que essa parada é, indubitavelmente, muito linda de se pensar. Ainda mais nos tempos de hoje, nos quais tudo é tão instantâneo — fotos, status, vídeos, check-ins, shares, likes, favs — e ainda assim tão efêmero. Algo a se pensar.

      • Das cadernetas, há tempos adio a aquisição de um moleskine. Dá pra comprar na bookdepository por um bom preço. Procurei nas papelarias aqui e achei umas imitações relativamente ok, com papel de baixa acidez. Se tiver recomendações de sketchbooks, agradeço. Ouvi falar bem das Cícero mas nunca peguei.

        Caligrafia é transtorno, não tem jeito, principalmente quando você tá anotando ideias cruas e confusas e não copiando algo. Aliás, o conforto com a lousa pode vir daí: você sabe desde o começo o que vai escrever e provavelmente já escreveu aquilo mais de uma vez. Na caderneta tem isso de você querer agrupar visualmente algumas ideias, preencher cantos antes de passar para a página seguinte, circular e puxar setas para explicar ideias linhas acima. Acho divertido, mais cru e mais próximo da forma como as ideias pipocam na cabeça. Mas isso só é possível pensando no computador, onde você pode passar aquele photoshop textual nos rabiscos.

        • Random

          A canson tem um sketchbook bem acessível (por volta de 20 reais num 14×21 cm de 100 folhas) , o Art Book One, que não abre 180° bonitinho na costura… Mas não acho que isso deva ser um problema, a não ser que você q faça questão de atravessar as páginas com seus rabiscos.

          • Não faço ~~muita~~ questão. Só me incomoda um pouco quando a dobra é grande demais e aquela área perto da costura fica praticamente inútil. Aí é desperdício de papel e desperdiçar papel é desperdiçar dinheiro que é vandalismo.