Vida após a escola, rotina de trabalho e a aparente falta de sociabilidade do professorado

(Esse texto foi originalmente postado há alguns anos em meu perfil do facebook e agora parcialmente revisado, com pequenas alterações aqui e ali. A ideia era cortar ao máximo, mas parece que falhei na missão. Nada de novo no front, meus amigos. Vida que segue.)

As aquarelas que ilustram esse post são de Marcos Beccari. A capa é de Allisson Diaz.

Muito se discute sobre como é a vida de um cidadão recém-formado no ensino médio. Nesse quesito, há geralmente duas linhas de pensamento, muito divergentes entre si: uma defendendo que tudo melhora e outra defendendo que tudo piora. Queria expor aqui um pouco da minha visão e mostrar as nuances sobre cada uma delas.

Na primeira linha de pensamento, acredita-se que o mundo escolar é uma estupidez sem tamanho. Que fazemos as coisas de forma obrigada, sem autonomia sobre nossas ações nem liberdade de escolha. Que o conhecimento escolar é irrelevante e sem significado para o MUNDO REAL. Assim, após nos libertarmos da escola, temos, enfim, a oportunidade de começar a VIVER DE VERDADE: faremos nossas escolhas na vida, estudaremos aquilo que nos interessa para executar ações que nos interessam.

Indo na contramão, a segunda linha de pensamento diz que, após a escola, estamos fadados à infelicidade. Saímos de uma bolha de conforto extremo e somos massacrados pelo MUNDO REAL. Enquanto na escola todas as ações são controladas e planejadas por sujeitos externos, nesse mundo pós-escola somos obrigados a VIVER DE VERDADE. Precisamos trabalhar, ganhar dinheiro, nos sustentar, nos submeter a algumas situações pouco desejáveis simplesmente porque sim. E tudo isso é um saco.

Eu vivo uma filosofia meio BUDISTA que sempre busca o caminho do meio, a terceira margem do rio. Então não concordo com nenhuma dessas linhas de pensamento; pode-se dizer que acredito num híbrido das duas.

De fato, a escola atual está presa ao passado e num iminente colapso. As situações ali vivenciadas não se conectam à realidade, o suposto conhecimento que, via de regra, deveria ser transmitido – e é importante ressaltar o grande absurdo que é acreditar num conhecimento “transmissível”, como se fosse uma doença ou um aplicativo a ser instalado – nunca o é, ou, quando é, não tem significado. E, talvez o mais importante: o aluno não se importa com a escola principalmente porque ele não PEDIU por aquilo; a relação que se dá entre ambos existe por questões de obrigação. Assim, é bastante natural acreditar que, após nossa SOLTURA da escola – a analogia com o sistema penitenciário é extremamente intencional, apesar de falsa – estamos, enfim, livres para tomarmos controle sobre nossas próprias vidas.

o aluno não se importa com a escola principalmente porque ele não pediu por aquilo

Porém, acredito que o buraco é mais embaixo. Ou não tão fundo assim, dependendo da maneira como se encaram as coisas. Existe uma importância tremenda dentro da escola, mesmo nesse modelo meio quebrado e remendado que vivenciamos: as relações sociais que ela nos proporciona e como isso nos permite construir uma identidade própria. Você pode até argumentar que nunca extraiu nada de bom da escola porque não se relaciona de modo significativo com ninguém do ambiente escolar. Até nesses casos extremos verifica-se um encontro do seu eu interno, ao negar identificação com o ambiente externo – e esse é um tema sobre o qual eu precisaria me estender mais, quem sabe noutra oportunidade (e quando eu pensar mais a respeito, também).

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Além do mais, mesmo que você diga que o conhecimento da escola lhe é inútil – representado na famosa frase “pra que isso vai servir na minha vida?” – eu lhe digo duas coisas:

(a) Se não fosse pela escola, uma pessoa decidida a tornar-se, por exemplo, um advogado – carreira em que, supostamente, não se necessita conhecimentos profundos de física – jamais poderia entrar em contato com discussões que são inerentes a seu estudo: a caracterização da natureza, a necessidade humana de teorizar e modelar fenômenos para explicar as regularidades observadas, o sentimento de perplexidade frente aos “absurdos” de alguns fenômenos observáveis, entre outros.

(b) E, talvez mais importante: como você tem certeza do que fará ao longo da sua vida? Admito que, para alguns, seja bastante evidente que, seja lá o que for, não seguirá determinada carreira. (Isso ocorre, de modo geral, ao caracterizar-se as carreiras como “das humanidades”, “das exatas” ou “das biológicas”. O que, ao meu ver, é uma falácia lógica; eu, por exemplo, me formei em licenciatura em física (exatas) e trabalho majoritariamente com ensino (humanidades); como resolver esse impasse?) Mesmo nessas situações, ter contato com outras formas de representar o conhecimento humano é extremamente válido.

Pra que isso vai servir na minha vida? Como você tem certeza do que fará ao longo da sua vida?

Portanto, fechando toda essa ELUCUBRAÇÃO: não acredito que após a escola todas as coisas melhoram. Porque não vejo sentido em falar sobre algo “melhorar” nesse caso; seria apenas o encerramento de um ciclo e a abertura de uma nova etapa.

O que me leva à defesa e à crítica da segunda linha de pensamento: as coisas também não pioram após a escola, pelos mesmos motivos citados no parágrafo anterior. Minha crítica a esse modelo reside em alguns fatores primordiais:

Nem sempre você vai fazer “tudo o que quer da sua vida”

Isto é evidente, mesmo que não aceitemos. Se você já não fazia isso antes, o que garante que vá passar a fazer agora? Acho que quem tem espírito autônomo de verdade não necessita de situações perfeitas para exercer essa autonomia.

Mas você, certamente, tem, agora, a liberdade de seguir um caminho próprio. E ser feliz com esse caminho, fazendo seja lá o que for: sendo um empresário, um professor universitário, um artista liberal ou um pai/uma mãe dedicad@. A vida é feita dessas escolhas.

Nós não temos muitas certezas sobre o que “queremos” da vida

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Desde o momento em que nos percebemos como gente no mundo, que toma ações e sofre as consequências de suas escolhas, nos deparamos com um gigantesco oceano de possibilidades. Principalmente na fase de 16 a 20 anos, por se tratar do momento da Escolha. Acho bastante desumano obrigar alguém a escolher sua carreira para o futuro e, quando este bater a cara num muro concreto de realidade e desilusão, meter-lhe o dedo na fuça e chamá-lo de irresponsável. A escola poderia lhe oferecer esse leque de possibilidades. Mais do que isto, a escola geralmente tenta lhe dar esse suporte; mas estamos tão cegos e tão fechados no mundo das ideias invertidas, nas quais tudo o que vem da escola só pode ser ruim pois, afinal, a escola é inerentemente ruim, que não nos apercebemos disso e perdemos essa janela de oportunidades.

Evidentemente, seria muito leviano de minha parte acreditar que todo mundo tem muitas escolhas na vida e que todas elas têm um enorme potencial de sucesso; basta agarrá-las e acreditar nos seus sonhos! É óbvio que não. Algumas pessoas largaram na frente no jogo da vida; possuem mais opções de escolha, melhores condições de vida e uma estrada bonita pela frente. Outras, por motivos variados, de cunho sócio-histórico, não foram agraciadas com as benesses do mundo e possuem oportunidades mais reduzidas, adotando aquele que lhe parece o único caminho.

Em ambos os casos, contudo, a escola pode ser a peça chave desse quebra-cabeças. Ainda mais se tratando dos casos de classes sociais menos privilegiadas, pode ser uma mão amiga que muda a trajetória daquela pessoa.

Trabalhar pode ser chato

Trabalhar pode ser chato, penoso, desgastante. Lembro da fala de uma amiga escritora, durante a época em ministrava aulas, inclusive justificando os motivos que levaram seu desligamento da docência (os grifos são meus):

gosto de escrever. numa função administrativa sobraria talvez mais tempo para escrever e, principalmente, mais cabeça para escrever. mas que coisa estranha essa de viver para o tempo que sobra, não?

Isso, por si só, vai de acordo com o pensamento do “vai tudo ficar ruim demais, irmãozinho”. Mas, novamente, perspectiva: depende daquilo que você faz e como o faz. Não existe nenhuma solução pronta para nada nessa vida.

O que me leva aos próximos dois pontos.

A estranha relação entre o trabalho e a vida social

Há quase um consenso dizendo que, ou você trabalha (em alguns casos o estudo pode entrar no meio) ou você tem uma vida social. Eles parecem constituir-se de entes mutuamente exclusivos cujas existências não podem coabitar a sua vida.

Concordo que, muitas vezes, o trabalho ocupa a maior parte do nosso dia-a-dia – poderíamos voltar aquilo de “viver para o tempo que sobra”, mas não entremos novamente na mesma discussão. Nessas circunstâncias, acabamos por nos relacionar majoritariamente com as pessoas do nosso trabalho; o círculo profissional passa a ser, também, o círculo de amizades. E é complicado, às vezes, viver com o pessoal do trabalho, porque muitos de nós acabam discutindo o trabalho. O tempo todo.

(Reparem que isso, obviamente, varia para cada pessoa. Existem aqueles que conseguem separar as coisas e os que mergulham de cabeça numa só. Qual tipo se parece com cada um de nós?)

Por isso acho, novamente, que não é bem assim. É possível trabalhar intensamente e, nos momentos dedicados, ter boas relações de amizades/carinho/afeto com outras pessoas. Como em qualquer tipo de relacionamento, é importante saber fazer concessões, adequar-se, adaptar-se às circunstâncias. Você e seu amigo/amante precisam entender que cada um possui um diferente ritmo de vida e que ambos precisam adequar, vez ou outra, suas agendas de atuação. Se uma pessoa é incapaz de perceber isso, provavelmente ela não lhe será um bom acréscimo nessa vida.

Contudo, há outra ideia que me incomoda demais quando tratamos da aparente dicotomia entre trabalho e felicidade: a propaganda falaciosa e tendenciosa do LARGUE SEU EMPREGO E SEJA FELIZ VIAJANDO PELO MUNDO. Para não delongar excessivamente esse devaneio, recomendo a leitura de outros textos.

O professor é um ser antissocial?

Professores costumam brincar que só podem ter amigos e amantes professores: somente estes entendem, de fato, sua rotina. É verdade e não é.

De fato, o trabalho não ocorre somente entre os muros da escola. Existe muita coisa sendo feita em outros horários. Existe um sem-fim de atividades a serem exercidas pelo professor, em diversos momentos: planejamento da aula; montagem/preparo de recursos; seleção/criação de atividades; aplicação; análise; correções; reflexões sobre a prática e afins. Frequentemente os professores precisam fazer tudo isso em mais de uma escola para obter uma renda minimamente digna, visto que o salário de professor não é dos melhores. Por fim, em muitos casos, os professores conciliam a vida profissional com a vida acadêmica, realizando cursos de extensão, pesquisa, mestrado, doutorado et coetera. E aí: sobra tempo para algo?

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Decorre disso tudo que o professor acaba isolando-se num mundo próprio. Vive-se disso e para isso. Eu não sei dizer se é algo necessariamente ruim; pode parecer, mas talvez nem tanto. Digo somente por mim.

Desde o momento em que decidi me tornar professor, pouco antes de entrar na graduação, meu olhar sobre o mundo passou a se dar sob a ótica do ensino. Penso e respiro docência enquanto existo.

O que não significa, vejam bem, que tornei-me um alienado. Até mesmo porque sempre possuí outros interesses: literatura (tentei escrever por uns tempos, mas deixei de lado), música (tentei ser MUSIQUEIRO por uns tempos, mas deixei de lado), desenho (tentei ser webdesigner por uns tempos, mas deixei de lado), videogame (alguém sai comigo para jogar Pokémon Go?). Tirando a brincadeira do “deixar de lado”, é tudo verdade. Acho que ser professor é saber dialogar com diferentes frentes de pensamento. Por isso gosto tanto de discutir filosofia, política, estética. Não consigo me ver fazendo outra coisa.

Obviamente, o tempo que é disponível para dedicar-me a tais artes não é tão longo. Mas isso ocorre com muitas outras carreiras; tenho amigos advogados, médicos e empresários que poderiam dizer o mesmo (em maior ou menor escala, mas acho que isso pode ser discutido em outro momento, já que depende muito das atividades que cada um desempenha). O que permeou toda a minha discussão vale aqui, também: perspectiva. Depende das responsabilidades que o professor tomou para si naquele período letivo, dos seus interesses e do jogo que se faz entre ambos.

Concluindo, nada nessa vida é um dado pronto. Vai ver é essa, justamente, a graça da coisa toda: não sermos niilistas que descobriram, cedo demais, o sentido de estar vivo.