Sobre a partida

Imagem de capa: Jeremy Geddes, “Ascent” (2014), óleo sobre tela.

(Originalmente publicado em alguma rede social)

“o mestre gira o globo
balança a cabeça e diz
o mundo é isso e assim
livros alunos aparelhos
somem pelas janelas
nuvem de pó de giz”
— Paulo Leminski

Há um bom tempo uma ideia ronda a minha cabeça. Eu chamo de ideia por falta de uma palavra mais apropriada – um pensamento, um algo abstrato, uma massa disforme sem muita coerência começo meio fim. Mas como toda delonga um dia finda, me parece oportuno tentar compartilhar este devaneio e, quem sabe?, deletar um item do arquivo crises.txt. Economizar na terapia é preciso.

Direto ao ponto: eu não sei lidar com a partida. Não sei me despedir. Não encaro muito bem a ideia de uma perda, qualquer seja ela, talvez pela negação da existência que ela carrega consigo. Como se o fato de algo chegar ao fim implicasse em dizer que seu efeito é o mesmo que teria sido obtido se aquilo nunca tivesse existido.

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Jeremy Geddes—”Labent” (2014), óleo sobre tela

É, eu sei. É uma ideia bastante idiota. E incoerente. Mas.

Geralmente as pessoas se referem a perdas na morte de um parente; no término de um relacionamento; no encerramento de um emprego. E assim por diante. E eu não quero soar [ainda mais] dramático em colocar no mesmo patamar as despedidas necessárias quando um ciclo chega ao fim. Por exemplo, quando vejo os alunos indo embora para suas novas velhas vidas sem nenhuma participação minha mais. Aquilo faz parte do vínculo que estabelecemos, é sabido desde o início e, mais importante, é necessário. Porque a ideia de um “bom” professor é tornar o aluno capaz de não precisar mais dele.

A ideia de um “bom” professor é tornar o aluno capaz de não precisar mais dele

Eu queria ter me despedido de vocês. Em vários momentos da minha vida. Chegar na sala de aula, encostar na mesa e dizer-lhes para abraçar o mundo. Que mais uma fase começa, como tantas outras já vieram e tantas mais ainda virão. Dizer que essa vida é um saco, mesmo, mas não precisa ser assim. Dizer que vocês não são especiais – porque o mundo é cruel com aquele que se julga importante demais. Dizer que vocês não são perdedores – porque o mundo se alimenta dessa fraqueza de espírito e vai carregando pessoas por aí feito uma onda lamacenta. Dizer que vocês já sabem dessas coisas todas, eu já sei dessas coisas todas, mas ao mesmo tempo não sabemos de quase nada. Tenho colegas que são bem melhores nisso e deixo para eles essa tarefa inglória.

Jeremy Geddes—’A quiet heaven’ (2014), óleo sobre tela

E nessas de não saber nada aprendi um capinzal de coisas com todos. Aprendi que aquela pedra preta de gelo duro que eu dizia haver no peito não passava de uma fenda que nunca enganou ninguém. Um buraquinho que a gente foi preenchendo com uma série de ideias, frustrações, tentativas, avanços, retrocessos. Por mais que eu não seja uma pessoa de esperanças, ambições e tudo o mais, acho que aprendi a adotar alguns de seus ideais e levar a vida junto.

O mundo é cruel com aquele que se julga importante demais

Vejam: nunca pretendi adotar qualquer discurso sobre o que é a vida lá fora. Exceto quando divaguei verborragicamente em linhas parecidas. Confesso que gostaria de ser aquela pessoa capaz de lhes dizer coisas inspiradoras. Sobre o sucesso, sobre a realização profissional, sobre a felicidade, sobre a Vida de Verdade. Mas seria um pouco falso de minha parte. E pretensioso. Como se eu fosse o detentor de algum conhecimento elevado que essa minha “experiência” permitiu concluir.

Isto tudo pode acontecer. Tenho uma convicção de que acontecerá. Conheço o potencial da grande maioria de vocês e sei que serão capazes de montes de coisas. Para não cair no discurso vazio do “você consegue”, digo-lhes, enfim: sejam honestos. Acima de tudo, consigo mesmos. Busquem alguma coisa que vocês queiram. Busquem querer coisas. Porque, se aprendi algo nesta minha ~longa trajetória de vida~ é que é muito difícil querer coisas. A gente quer tudo, ao mesmo tempo em que parece não ter forças para nada.

Acima de tudo: permitam-se errar. Errar é preciso, é necessário, faz parte do processo de aprendizagem. Esta é, talvez, uma das lições mais importantes que a escola pode te dar. Não sei se consegui ensiná-los isto e dessa forma, mas era uma das grandes pretensões. E sei que demonstro, muitas vezes, agir de maneira contraditória, uma vez que também não sei lidar direito com meus erros; o que significa que eu continuo aprendendo.

Jeremy Geddes—’There is glory in our Failure’ (2014), óleo sobre tela

Minha bagagem só cresce com o tempo. É recheada de conversas, aprendizados, ensinamentos, novas pessoas e, obviamente, piadas internas. Muitas piadas internas. Tantas que torna-se impossível — para não dizer chato — redigir uma lista  de tudo o que se passou até o momento. Porque o professor Pedro é um vacilixo, que pensa tocar bateria mas na verdade apanha musicalmente pra aluno em festival escolar. No final do ano letivo, ameaça estudantes com uma paródia de Gandalf, dizendo: você não vai passar. É incontável o número de montagens e fotos fora de contexto espalhadas pela internet, geralmente relacionadas com seus cabelos, seu mal-humor diário ou a falta de dicção para pronunciar palavras simples, tais como “aceleração” e “proporcionalidade”. Para mostrar como não tem personalidade, basta reparar no óbvio ululante: copiou Wesley Safadão — e tentou cantar isto frente a uma plateia atônita e levemente envergonhada. Não fosse o suficiente, chegou a forjar seu próprio sumiço, deixando preocupados até os pais de alguns alunos, que ofereceram ajuda policial e consultoria com detetive particular — e era só mais um plano para engrandecer uma atividade escolar. Então, realmente, fica difícil montar uma lista frente a essa enxurrada de vacilo.

Minha vida é uma Escolinha do Professor Raimundo eterna.

Provavelmente eu não verei mais boa parte de vocês. Talvez nos cruzemos na rua, num parque, num shopping. Porque é isto que a vida é, e é assim que deve ser. Se eu pudesse dar a “última aula”, ela teria duração de alguns minutos e consistiria numa mensagem bastante simples: tenham certeza de que lembrarei de vocês. E espero que algum dia vocês tropecem num fiapo de memória distante daquele professor cabeludo magrelo barrigudo estranho de barba de bode que faz barulho esquisito porque não controla uma sala com 87 alunos e gosta de desenhar na lousa em momentos aleatórios e precisa dar aulas apertando uma bolinha terapêutica para controlar o stress evitando assim o famoso processinho. Ou quaisquer outras lembranças que vocês quiserem.

Porque haverá um monte delas. Nem todas serão importantes. Ou relevantes.

Mas todas elas serão verdadeiras.

Um abraço. Um aperto de mão. Um sorriso.
E até breve, amig@s.

Colcha de retalhos

As imagens que ilustram esse post são de Eric Lacombe.

Eu não era uma criança sociável demais; sociável em certa medida, no sentido de dar oi e tchau, pedir licença, desculpa, sorrir quando necessário. Mas sempre naquele nível mais superficial. Meu lance, de verdade, sempre foi a introspecção. Acredito que meu problema de audição reduzida tenha contribuído para isto.

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Confesso que recordações da infância me parecem muito distantes. Lembro-me de um detalhe ou outro, algum episódio marcante, seja pela beleza ou pela vergonha. Contudo, um traço já era presente e me acompanha até então: o mundo de dentro sempre foi muito mais interessante do que o mundo de fora. Assim, era difícil atuar neste mundo externo, uma vez que suas regras e convenções sociais são ditadas pelos outros, não por mim. Aprendi como qualquer aluno aprende as coisas, no momento inicial: copiando o que as pessoas ao meu redor faziam.

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Vamos pular vertiginosamente para frente no tempo, com meus primeiros empregos. Uma criança notoriamente fechada, com dificuldades de se expressar em público, constantemente atingida pela timidez — facilmente percebida pela explosão de rubor em sua face — em qualquer tipo de evento social, escolhe para sua carreira: lecionar. Ótima escolha. Colocar-se na frente de uma plateia altamente exigente e passar a palestrar sobre algum tema qualquer, relevante ou não na concepção daquele público, exigindo também sua concentração e atenção dirigida. Minha vida inteira baseada em “não olhe para mim” e agora, pasmem, necessitando que olhem para mim.

Ainda tínhamos mais problemas neste ínterim. Eram também os que mais me assustavam quando comecei a trabalhar: como conversar com meus colegas de trabalho? Porque, na minha cabeça, eu precisava falar com adultos; e aí vinha aquela pergunta: eu sou adulto? Eles me consideram já adulto, um jovem adulto, um adolescente tardio, uma criança afinal? Vejo, hoje em dia, que isto pode ser resumido como uma problemática da imagem: aquela que eu faço de mim, a que os outros fazem de mim e aquela que acredito que os outros façam de mim.

E é assustador pensar nisso; e é assustador ainda pensar nisso. De todo modo, hoje em dia esse tipo de pensamento adquiriu outras nuances e um caráter diferente — tem mais relações com uma identidade do que com uma imagem aparente. No que tange ao início da carreira profissional, precisei aprender a me portar como as pessoas ao meu redor se portavam. E aí começa toda uma brincadeira de cópias, simulacros, retificações e ratificações. Eu olhava como as pessoas falavam, gesticulavam, riam, se portavam. Internalizava esses gestos, observava mais um pouco e, com uma certa dose de desconfiança, reproduzia aquilo da minha maneira.

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Muitas das expressões que utilizo em meu cotidiano foram copiadas de alguém que disse para mim, ou alguém que vi dizendo, às vezes somente li em algum lugar. Os jargões, bordões e frases de efeito utilizadas em sala de aula também tiveram, em sua maioria, origens com outros professores com quem trabalhei ou estudei. Conforme o tempo foi passando, sofreram suas mutações naturais, evoluindo para algo mais próprio ou morrendo no meio do caminho — uma espécie de darwinismo cultural.

Contudo, eu não era um mero papagaio sem expressão própria e, mais importante, aprendi a diferenciar entre um comportamento aceitável e uma postura errada. Porque essa me parece uma daquelas lições importantes que esperamos aprender em algum momento: nossa vida é a soma de outras vidas. Dizendo de outro modo, aquilo que entendemos como nossa própria personalidade é uma espécie de colcha de retalhos de outras personalidades, que escolhemos costurar para si. Sem nem perceber, fazemos isso a vida toda — e é exatamente assim que a criança aprende suas primeiras coisas, com os pais, os avós, as pessoas mais próximas e, futuramente, com a escola. Por isso, dizer que “professor não é educador” me soa bastante ingênuo — mas tenho algumas ressalvas, então deixemos para outro episódio dessa temporada.

Não somente de impressões sobre o mundo, fazemos cópias de expressões sobre o mundo, nossas atitudes: as falas, os gestos, as piadas, as idiossincrasias, modos de agir em geral. Isto exige uma vigilância constante, pois estamos fadados a estarmos errados. Então, não é inerentemente ruim estar errado; ruim, mesmo, é não perceber-se errado e, ainda pior, não agir para que isto seja modificado.

 

Vida após a escola, rotina de trabalho e a aparente falta de sociabilidade do professorado

(Esse texto foi originalmente postado há alguns anos em meu perfil do facebook e agora parcialmente revisado, com pequenas alterações aqui e ali. A ideia era cortar ao máximo, mas parece que falhei na missão. Nada de novo no front, meus amigos. Vida que segue.)

As aquarelas que ilustram esse post são de Marcos Beccari. A capa é de Allisson Diaz.

Muito se discute sobre como é a vida de um cidadão recém-formado no ensino médio. Nesse quesito, há geralmente duas linhas de pensamento, muito divergentes entre si: uma defendendo que tudo melhora e outra defendendo que tudo piora. Queria expor aqui um pouco da minha visão e mostrar as nuances sobre cada uma delas.

Na primeira linha de pensamento, acredita-se que o mundo escolar é uma estupidez sem tamanho. Que fazemos as coisas de forma obrigada, sem autonomia sobre nossas ações nem liberdade de escolha. Que o conhecimento escolar é irrelevante e sem significado para o MUNDO REAL. Assim, após nos libertarmos da escola, temos, enfim, a oportunidade de começar a VIVER DE VERDADE: faremos nossas escolhas na vida, estudaremos aquilo que nos interessa para executar ações que nos interessam.

Indo na contramão, a segunda linha de pensamento diz que, após a escola, estamos fadados à infelicidade. Saímos de uma bolha de conforto extremo e somos massacrados pelo MUNDO REAL. Enquanto na escola todas as ações são controladas e planejadas por sujeitos externos, nesse mundo pós-escola somos obrigados a VIVER DE VERDADE. Precisamos trabalhar, ganhar dinheiro, nos sustentar, nos submeter a algumas situações pouco desejáveis simplesmente porque sim. E tudo isso é um saco.

Eu vivo uma filosofia meio BUDISTA que sempre busca o caminho do meio, a terceira margem do rio. Então não concordo com nenhuma dessas linhas de pensamento; pode-se dizer que acredito num híbrido das duas.

De fato, a escola atual está presa ao passado e num iminente colapso. As situações ali vivenciadas não se conectam à realidade, o suposto conhecimento que, via de regra, deveria ser transmitido – e é importante ressaltar o grande absurdo que é acreditar num conhecimento “transmissível”, como se fosse uma doença ou um aplicativo a ser instalado – nunca o é, ou, quando é, não tem significado. E, talvez o mais importante: o aluno não se importa com a escola principalmente porque ele não PEDIU por aquilo; a relação que se dá entre ambos existe por questões de obrigação. Assim, é bastante natural acreditar que, após nossa SOLTURA da escola – a analogia com o sistema penitenciário é extremamente intencional, apesar de falsa – estamos, enfim, livres para tomarmos controle sobre nossas próprias vidas.

o aluno não se importa com a escola principalmente porque ele não pediu por aquilo

Porém, acredito que o buraco é mais embaixo. Ou não tão fundo assim, dependendo da maneira como se encaram as coisas. Existe uma importância tremenda dentro da escola, mesmo nesse modelo meio quebrado e remendado que vivenciamos: as relações sociais que ela nos proporciona e como isso nos permite construir uma identidade própria. Você pode até argumentar que nunca extraiu nada de bom da escola porque não se relaciona de modo significativo com ninguém do ambiente escolar. Até nesses casos extremos verifica-se um encontro do seu eu interno, ao negar identificação com o ambiente externo – e esse é um tema sobre o qual eu precisaria me estender mais, quem sabe noutra oportunidade (e quando eu pensar mais a respeito, também).

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Além do mais, mesmo que você diga que o conhecimento da escola lhe é inútil – representado na famosa frase “pra que isso vai servir na minha vida?” – eu lhe digo duas coisas:

(a) Se não fosse pela escola, uma pessoa decidida a tornar-se, por exemplo, um advogado – carreira em que, supostamente, não se necessita conhecimentos profundos de física – jamais poderia entrar em contato com discussões que são inerentes a seu estudo: a caracterização da natureza, a necessidade humana de teorizar e modelar fenômenos para explicar as regularidades observadas, o sentimento de perplexidade frente aos “absurdos” de alguns fenômenos observáveis, entre outros.

(b) E, talvez mais importante: como você tem certeza do que fará ao longo da sua vida? Admito que, para alguns, seja bastante evidente que, seja lá o que for, não seguirá determinada carreira. (Isso ocorre, de modo geral, ao caracterizar-se as carreiras como “das humanidades”, “das exatas” ou “das biológicas”. O que, ao meu ver, é uma falácia lógica; eu, por exemplo, me formei em licenciatura em física (exatas) e trabalho majoritariamente com ensino (humanidades); como resolver esse impasse?) Mesmo nessas situações, ter contato com outras formas de representar o conhecimento humano é extremamente válido.

Pra que isso vai servir na minha vida? Como você tem certeza do que fará ao longo da sua vida?

Portanto, fechando toda essa ELUCUBRAÇÃO: não acredito que após a escola todas as coisas melhoram. Porque não vejo sentido em falar sobre algo “melhorar” nesse caso; seria apenas o encerramento de um ciclo e a abertura de uma nova etapa.

O que me leva à defesa e à crítica da segunda linha de pensamento: as coisas também não pioram após a escola, pelos mesmos motivos citados no parágrafo anterior. Minha crítica a esse modelo reside em alguns fatores primordiais:

Nem sempre você vai fazer “tudo o que quer da sua vida”

Isto é evidente, mesmo que não aceitemos. Se você já não fazia isso antes, o que garante que vá passar a fazer agora? Acho que quem tem espírito autônomo de verdade não necessita de situações perfeitas para exercer essa autonomia.

Mas você, certamente, tem, agora, a liberdade de seguir um caminho próprio. E ser feliz com esse caminho, fazendo seja lá o que for: sendo um empresário, um professor universitário, um artista liberal ou um pai/uma mãe dedicad@. A vida é feita dessas escolhas.

Nós não temos muitas certezas sobre o que “queremos” da vida

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Desde o momento em que nos percebemos como gente no mundo, que toma ações e sofre as consequências de suas escolhas, nos deparamos com um gigantesco oceano de possibilidades. Principalmente na fase de 16 a 20 anos, por se tratar do momento da Escolha. Acho bastante desumano obrigar alguém a escolher sua carreira para o futuro e, quando este bater a cara num muro concreto de realidade e desilusão, meter-lhe o dedo na fuça e chamá-lo de irresponsável. A escola poderia lhe oferecer esse leque de possibilidades. Mais do que isto, a escola geralmente tenta lhe dar esse suporte; mas estamos tão cegos e tão fechados no mundo das ideias invertidas, nas quais tudo o que vem da escola só pode ser ruim pois, afinal, a escola é inerentemente ruim, que não nos apercebemos disso e perdemos essa janela de oportunidades.

Evidentemente, seria muito leviano de minha parte acreditar que todo mundo tem muitas escolhas na vida e que todas elas têm um enorme potencial de sucesso; basta agarrá-las e acreditar nos seus sonhos! É óbvio que não. Algumas pessoas largaram na frente no jogo da vida; possuem mais opções de escolha, melhores condições de vida e uma estrada bonita pela frente. Outras, por motivos variados, de cunho sócio-histórico, não foram agraciadas com as benesses do mundo e possuem oportunidades mais reduzidas, adotando aquele que lhe parece o único caminho.

Em ambos os casos, contudo, a escola pode ser a peça chave desse quebra-cabeças. Ainda mais se tratando dos casos de classes sociais menos privilegiadas, pode ser uma mão amiga que muda a trajetória daquela pessoa.

Trabalhar pode ser chato

Trabalhar pode ser chato, penoso, desgastante. Lembro da fala de uma amiga escritora, durante a época em ministrava aulas, inclusive justificando os motivos que levaram seu desligamento da docência (os grifos são meus):

gosto de escrever. numa função administrativa sobraria talvez mais tempo para escrever e, principalmente, mais cabeça para escrever. mas que coisa estranha essa de viver para o tempo que sobra, não?

Isso, por si só, vai de acordo com o pensamento do “vai tudo ficar ruim demais, irmãozinho”. Mas, novamente, perspectiva: depende daquilo que você faz e como o faz. Não existe nenhuma solução pronta para nada nessa vida.

O que me leva aos próximos dois pontos.

A estranha relação entre o trabalho e a vida social

Há quase um consenso dizendo que, ou você trabalha (em alguns casos o estudo pode entrar no meio) ou você tem uma vida social. Eles parecem constituir-se de entes mutuamente exclusivos cujas existências não podem coabitar a sua vida.

Concordo que, muitas vezes, o trabalho ocupa a maior parte do nosso dia-a-dia – poderíamos voltar aquilo de “viver para o tempo que sobra”, mas não entremos novamente na mesma discussão. Nessas circunstâncias, acabamos por nos relacionar majoritariamente com as pessoas do nosso trabalho; o círculo profissional passa a ser, também, o círculo de amizades. E é complicado, às vezes, viver com o pessoal do trabalho, porque muitos de nós acabam discutindo o trabalho. O tempo todo.

(Reparem que isso, obviamente, varia para cada pessoa. Existem aqueles que conseguem separar as coisas e os que mergulham de cabeça numa só. Qual tipo se parece com cada um de nós?)

Por isso acho, novamente, que não é bem assim. É possível trabalhar intensamente e, nos momentos dedicados, ter boas relações de amizades/carinho/afeto com outras pessoas. Como em qualquer tipo de relacionamento, é importante saber fazer concessões, adequar-se, adaptar-se às circunstâncias. Você e seu amigo/amante precisam entender que cada um possui um diferente ritmo de vida e que ambos precisam adequar, vez ou outra, suas agendas de atuação. Se uma pessoa é incapaz de perceber isso, provavelmente ela não lhe será um bom acréscimo nessa vida.

Contudo, há outra ideia que me incomoda demais quando tratamos da aparente dicotomia entre trabalho e felicidade: a propaganda falaciosa e tendenciosa do LARGUE SEU EMPREGO E SEJA FELIZ VIAJANDO PELO MUNDO. Para não delongar excessivamente esse devaneio, recomendo a leitura de outros textos.

O professor é um ser antissocial?

Professores costumam brincar que só podem ter amigos e amantes professores: somente estes entendem, de fato, sua rotina. É verdade e não é.

De fato, o trabalho não ocorre somente entre os muros da escola. Existe muita coisa sendo feita em outros horários. Existe um sem-fim de atividades a serem exercidas pelo professor, em diversos momentos: planejamento da aula; montagem/preparo de recursos; seleção/criação de atividades; aplicação; análise; correções; reflexões sobre a prática e afins. Frequentemente os professores precisam fazer tudo isso em mais de uma escola para obter uma renda minimamente digna, visto que o salário de professor não é dos melhores. Por fim, em muitos casos, os professores conciliam a vida profissional com a vida acadêmica, realizando cursos de extensão, pesquisa, mestrado, doutorado et coetera. E aí: sobra tempo para algo?

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Decorre disso tudo que o professor acaba isolando-se num mundo próprio. Vive-se disso e para isso. Eu não sei dizer se é algo necessariamente ruim; pode parecer, mas talvez nem tanto. Digo somente por mim.

Desde o momento em que decidi me tornar professor, pouco antes de entrar na graduação, meu olhar sobre o mundo passou a se dar sob a ótica do ensino. Penso e respiro docência enquanto existo.

O que não significa, vejam bem, que tornei-me um alienado. Até mesmo porque sempre possuí outros interesses: literatura (tentei escrever por uns tempos, mas deixei de lado), música (tentei ser MUSIQUEIRO por uns tempos, mas deixei de lado), desenho (tentei ser webdesigner por uns tempos, mas deixei de lado), videogame (alguém sai comigo para jogar Pokémon Go?). Tirando a brincadeira do “deixar de lado”, é tudo verdade. Acho que ser professor é saber dialogar com diferentes frentes de pensamento. Por isso gosto tanto de discutir filosofia, política, estética. Não consigo me ver fazendo outra coisa.

Obviamente, o tempo que é disponível para dedicar-me a tais artes não é tão longo. Mas isso ocorre com muitas outras carreiras; tenho amigos advogados, médicos e empresários que poderiam dizer o mesmo (em maior ou menor escala, mas acho que isso pode ser discutido em outro momento, já que depende muito das atividades que cada um desempenha). O que permeou toda a minha discussão vale aqui, também: perspectiva. Depende das responsabilidades que o professor tomou para si naquele período letivo, dos seus interesses e do jogo que se faz entre ambos.

Concluindo, nada nessa vida é um dado pronto. Vai ver é essa, justamente, a graça da coisa toda: não sermos niilistas que descobriram, cedo demais, o sentido de estar vivo.

Estamos de volta: o que isto significa?

Primeiramente, bom dia boa tarde boa noite. Foi um longo inverno este que se passou. Todas as folhas caíram, as folhas que nasceram no lugar também caíram, foram-se as flores e uma boa parte das frutas apodreceram em volta de um balde preto no quintal. Felizmente, era uma balde rachado e não acumulou água parada.

Nada disso, de fato, é importante. Estou aqui para comunicar a volta deste belíssimo site que costumo chamar, orgulhosamente, de meu. O recesso foi maior do que eu gostaria; mas, para ser honesto, a cabeça anda tão desligada do que acontece ao redor que a percepção de tempo não segue uma coerência interna, de modo que não posso dizer, honestamente, ter sentido esse tempo passar.

Então vamos aos fatos.

Estamos de volta, bons amigues. Pretendemos fornecer, novamente, bastante verborragia, dicas de coisas sobre as quais possuímos pouco ou nenhum interesse, material para estudo, referências aleatórias e um pitaco de insanidade. Porque, afinal, viver dentro dessa bolha sem cor nunca fez o menor sentido em sociedade alguma. Algumas pessoas conseguem crescer dentro do estrago.

Estou fazendo, lentamente, a migração do conteúdo velho pra casa ~nova~ (a casa teoricamente é a mesma, então imaginemos que, num ataque de melancolia, o morador tenha deixado o vento e o tempo levarem todos seus pertences pra rua e, agora, cabisbaixo, tenta recolher o que se encontra mais perto de seus braços; boa sorte, morador preguiçoso). Vejamos quanto tempo levarei para isto.

Não esperemos demais. Mas continuemos fortes.

Vinte e sete

Ambientação musical para o devaneio de hoje. Essa música, regravada pelos Raimundos em 2000, figurava de trilha sonora para o reality-show 20 e poucos anos, da [finada] MTV Brasil. O original é de Fábio Jr., eterno galã de novelas e pai do Fiuk. Apreciem com moderação.

Aos 27 anos, em 1906, Albert Einstein já havia publicado quatro trabalhos seminais, um ano antes, sobre efeito fotoelétrico (que lhe renderia, quinze anos mais tarde, o prêmio Nobel de física), movimento browniano, eletrodinâmica de corpos em movimento (conhecida como relatividade restrita) e equivalência entre massa e energia. Forneceu contribuições importantíssimas no desenvolvimento da física contemporânea, estabelecendo um novo paradigma para a ciência. Era notavelmente um razoável violinista e, talvez, um pai ausente.

Aos 27 anos, em 1970, Jimi Hendrix era um fenômeno mundial e um ícone da música jovem. Seu estilo de tocar guitarra aliava a clareza do blues à barulheira microfonada dos grandes espetáculos. Não surpreendentemente, sua apresentação no Festival Woodstock, um ano antes, até hoje é lembrada com saudosismo como um marco na história do rock. E não temos como esquecer sua guitarra quente no Festival de Monterey, em 1967 — uma resposta, segundo dizem, à atuação eletrizante de Pete Townsend, guitarrista do The Who. Morreu em Londres, provavelmente de overdose.

Aos 27 anos, em 1917, Lawrence Bragg comemorava o posto de mais novo laureado com um Nobel de Física até então, feito obtido dois anos antes, por seus trabalhos com cristalografia através de raios-x, junto de seu pai, Sir William Henry Bragg. Continua defendendo este cinturão e possivelmente será o eterno prodígio, tendo em vista que a média de idade dos premiados só tem aumentado de uns anos pra cá.

Aos 27 anos, em 1994, Kurt Cobain tinha virado a mídia musical para uma direção completamente nova. Encerrava-se a Era disco dos anos 80 e, como diziam os entusiastas, o rock estava vivo de novo. Não rebaterei essas informações. O Nirvana era, inevitavelmente, o símbolo máximo da juventude e Kurt, seu messias. Foi encontrado morto em sua casa, vítima de um tiro disparado por si mesmo.

Aos 27 anos, em 1928, Werner Heisenberg já havia publicado seus trabalhos sobre mecânica matricial e princípio da incerteza, bases fundamentais da física quântica, tornando-se um dos precursores deste ramo em ascensão. Quatro anos mais tarde, em 1932, obteve o Nobel de física, pela criação da mecânica quântica. E, oitenta anos depois, emprestou seu nome como pseudônimo a Walter White — que não se pode considerar, talvez, um pai ausente.

Aos 27 anos, em 2011, Amy Winehouse havia gravado “apenas” dois álbuns de estúdio, conquistando com eles cinco Grammys. Sua voz característica, de peculiares influências jazzísticas, conquistaram o mundo musical, a cultura pop e a juventude. Além da performance nos palcos, sua vida era também performática para a imprensa. Morreu em sua casa, provavelmente de overdose.

Aos 27 anos, em 2014, Pedro Bittencourt é professor de matemática e física. Não sabe o que fará no mês que vem, tampouco num intervalo de tempo posterior. Adotou uma gata preta recentemente, cujas unhas de navalha estão a lhe marcar em vários pontos do corpo e cujo horário biológico, ainda defasado, lhe impede de dormir todas as noites de forma completa. Não sabe que nome lhe dar e isto não lhe incomoda nem um pouco. Nunca ganhou um prêmio Nobel, nunca ganhará e isto também não é importante.

A necessidade de andar

Existe uma necessidade, quase que urgente, em escrever. Durante boa parte da minha vida me empreendi a escrever, o tempo todo, sobre todas as coisas, qualquer coisa; muitas vezes sobre nada, histórias inventadas, sem personagens, começo ou fim. Era uma maneira de colocar ordem no cotidiano caótico, ou desordenar a realidade cartesiana. Cada escrita no seu momento de necessidade.

Atualmente, essa necessidade é acadêmica: minha dissertação de mestrado exige que eu seja um bom leitor e, consequentemente, um bom escritor. Não somente para escrever a dissertação em si, mas para realizar reflexões, fichamentos, anotações, sínteses, resumos. Eu preciso ser um bom escritor para me tornar melhor leitor. Eu preciso ser um bom escritor para me tornar um bom pensador. É causa e consequência, ao mesmo tempo. É tudo o tempo todo.

Não gosto muito de clichês. Eles sempre me pareceram muito vazios, uma banalização da verdade. Como se eu pudesse condensar em uma frase um pensamento demasiadamente grande. Além daquela sensação HIPSTER de que, se todo mundo está usando, eles estão usando da forma errada. Um pensamento incrivelmente reacionário e rançoso. Porque, se pararmos pra PENSAR, por míseros quatro segundos, a realidade é totalmente oposta. Parafrasearei uma conversa entre os amigos Daniel Galera e André Conti, a respeito de tatuagens.

Sei que é um clichê, mas o próprio DFW [David Foster Wallace] era defensor do valor dos clichês, desde que bem empregados. Os clichês tendem a guardar verdades profundas, o problema é que eles, sozinhos, raramente expressam a verdade profunda porque, enfim, são clichês. Mas um clichê aplicado criticamente, ou comentado e contextualizado, pode ser um recurso poderoso. Eu gosto do “This is water”. Funciona como um interruptor pra desligar a autoconsciência e o egoísmo automático.

Tudo isso para relembrar daquilo que vovó dizia: “fazer [tal coisa] é que nem andar de bicicleta: depois que a gente aprende, a gente nunca esquece”. É verdade, isso. Primeiro, pedalamos com rodinhas, junto com a mãe ou com o pai, numa rua tranquila, preferencialmente no parque. As primeiras pedaladas são tímidas, receosas, assustadiças; feito os movimentos da gata que mora no meu quintal mas ainda não quer me amar — ainda. Com o tempo, pedalamos vigorosamente, alucinadamente, de forma que mamãe ou papai nos dizem: agora vamos tirar essas rodinhas e ver no que dá.

“E ver no que dá”. Soa sádico, não? Não. Porque a gente nunca sabe no que as coisas vão dar. A mãe e o pai não sabem como o filho vai ser. Eles não têm como saber e nem devem saber. A graça toda, acredito eu, pode estar aí: no processo de descoberta. Os pais aprendem a ser pais enquanto os filhos aprendem a ser filhos.

Mas isso é conversa pra outra hora.

Uma vez que você tenha se tornado um ciclista, a prática constante te levará a ser um ciclista cada vez melhor. Ou, na pior das hipóteses, um ciclista da mesma qualidade. Ninguém regride enquanto executa uma ação; ninguém retrocede um degrau se estiver caminhando no mesmo patamar.

A analogia é válida para [quase] todas as coisas, acredito. Inclusive escrever. Porque, depois de muito tempo sem escrever nada — não entram na conta conversas via chat, e-mail, social medias e afins — ficamos com a desagradável sensação de “eu não sei mais escrever, me enterrem”. O pensamento se afoga dentro da própria cabeça e, após escrever a primeira frase, tudo já se foi. Nada mais sai. Resmungamos impropérios, coçamos a cabeça, batemos a perna, tamborilamos os dedos nervosos na mesa.

Faz parte do processo. A retomada é sempre difícil. A ressaca é sempre muito ruim.

Por isso, talvez, estou colocando para mim mesmo um novo desafio: continuar escrevendo. Todos os dias. Seja lá o que for. Sobre qualquer coisa: fichamento de um novo capítulo, resenha de um filme, comentários sobre política, críticas aos comportamentos da sociedade; não importa. Qualquer coisa. Escrever cada vez mais para escrever melhor.

Porque não é só a minha carreira que demanda isso. A minha própria existência sente essa necessidade.

Lá e de volta outra vez

Comecei esse site há alguns meses atrás, acredito que em abril. No início, era tudo muito provisório e tinha como objetivo compartilhar material usado em aula. Depois, o grande motto foram as atividades da Gincana de grupos, que atraíram consideravelmente a atenção dos alunos. Como eu não sabia se a receptividade seria boa, não vi sentido em investir dinheiros logo no começo — utilizamos, então, um servidor gratuito.

Que serviu muito bem aos nossos interesses.

E que depois já não servia mais aos nossos interesses e então fomos desligados do sistema

Arquivos espalhados por aí

Com nossa DEGOLA prematura, tudo aquilo que foi produzido na época perdeu-se nos grilhões da internet — existem maneiras de recuperá-las e pretendo verificar assim que chronos resolver me presentear com um vale-entrosa. Surpreendentemente, apenas um post sobreviveu. É uma boniteza só e fala sobre nossa condição vagante nessa coisa misteriosa que uns costumam chamar de universo. Obviamente que recomendo a leitura.

— Mas, ô Pedro, você não fazia backups do site?

Então. Eu imaginava que sim. Configurei e tudo o mais. Mas, resumindo: em vão. Os backups também não funcionaram. Já me acostumei com isso e vou levando a vida do jeito que dá. Me chateio mais em perder nossas provas da gincana, pois algumas coisas tinham sido bastante interessantes. Nada dessa vida se carrega.

E como estamos agora?

De casa nova, casa nossa, um espaço confortável e bonito. Tem bastante coisa para explorar por aí, algumas pequenas mudanças no meio do caminho e projetos novos a serem acrescentados.

Vale discutir algumas coisas.

Um visual novo

Começa por aí. Saímos do template provisório e cara-de-blog e pudemos, enfim, desenhar o site do jeito que era pretendido no começo. Aproveitei a morte da versão gratuita e o início das férias de meio de ano para voltar aos desenhos e à programação.

Um pedacinho do site

Claro que não poderíamos esperar nada muito demais, afinal, meu conhecimento é limitado. Peço perdão aos designers trabalhadores e honestos de quem cop– tirei inspirações aqui e acolá.

Uma organização mais coerente

org

Acredito que as informações, agora, estejam melhor localizadas. Ficou mais fácil encontrar aquilo que você deseja — seja uma lista de exercícios, a correção de uma avaliação ou aquele post MAGIA que você resolver compartilhar com a galera. Com o tempo, pretendo aprimorar a seção de materiais, incorporando filtros para melhorar sua busca. Tempo ao tempo.

Um blog que agora é blog

blog

Existe uma separação entre as coisas do site e os posts do blog. No primeiro, compartilhamos nosso conteúdo de aula. No segundo, manifestamos nossa opinião sobre, bem, coisas. De início, estou escrevendo por mim mesmo. Daqui pra frente, pretendo incorporar também o brilhantismo de meus ilustres alunos. Coisas a vir, também.

Uma ajuda informativa

hel´p

A página que explica o que e para quê é esse site agora, aparentemente, cumpre melhor seu papel. As principais informações estão ali veiculadas, mostrando como é feita a divisão do site e onde se localiza cada coisa. Que é pra ninguém se sentir muito perdido

Uma fan page — yay!

Física Gualberto

Estamos no facebook — o que não é lá grande coisa, já que mais de 1 bilhão de pessoas também está (quase 60 milhões só aqui no BRAZIL). A página está sendo usada para veicular o que é produzido aqui no site, além de abrigar parte de nossa Gincana de grupos. Curte lá, meu amigo, e seja agraciado com boas vibrações emanadas pelos meus pokémons de biscuit.

E um projeto a ser finalizado

Ando negociando com alguns alunos que manifestaram interesse a criação de uma revista digital, de conteúdo coletivo e colaborativo. Desse grupo, alguns devem ter desistido, por incompetência minha. Mas para tudo existe conversa. Então, em breve, é possível que tenhamos outros trabalhos interessantes aparecendo aqui no site.

A minha função é dar o start. E esperar o que vai acontecer. Porque tudo nessa vida — e a própria vida — é um projeto em aberto.