Colcha de retalhos

As imagens que ilustram esse post são de Eric Lacombe.

Eu não era uma criança sociável demais; sociável em certa medida, no sentido de dar oi e tchau, pedir licença, desculpa, sorrir quando necessário. Mas sempre naquele nível mais superficial. Meu lance, de verdade, sempre foi a introspecção. Acredito que meu problema de audição reduzida tenha contribuído para isto.

eric04

Confesso que recordações da infância me parecem muito distantes. Lembro-me de um detalhe ou outro, algum episódio marcante, seja pela beleza ou pela vergonha. Contudo, um traço já era presente e me acompanha até então: o mundo de dentro sempre foi muito mais interessante do que o mundo de fora. Assim, era difícil atuar neste mundo externo, uma vez que suas regras e convenções sociais são ditadas pelos outros, não por mim. Aprendi como qualquer aluno aprende as coisas, no momento inicial: copiando o que as pessoas ao meu redor faziam.

eric02

Vamos pular vertiginosamente para frente no tempo, com meus primeiros empregos. Uma criança notoriamente fechada, com dificuldades de se expressar em público, constantemente atingida pela timidez — facilmente percebida pela explosão de rubor em sua face — em qualquer tipo de evento social, escolhe para sua carreira: lecionar. Ótima escolha. Colocar-se na frente de uma plateia altamente exigente e passar a palestrar sobre algum tema qualquer, relevante ou não na concepção daquele público, exigindo também sua concentração e atenção dirigida. Minha vida inteira baseada em “não olhe para mim” e agora, pasmem, necessitando que olhem para mim.

Ainda tínhamos mais problemas neste ínterim. Eram também os que mais me assustavam quando comecei a trabalhar: como conversar com meus colegas de trabalho? Porque, na minha cabeça, eu precisava falar com adultos; e aí vinha aquela pergunta: eu sou adulto? Eles me consideram já adulto, um jovem adulto, um adolescente tardio, uma criança afinal? Vejo, hoje em dia, que isto pode ser resumido como uma problemática da imagem: aquela que eu faço de mim, a que os outros fazem de mim e aquela que acredito que os outros façam de mim.

E é assustador pensar nisso; e é assustador ainda pensar nisso. De todo modo, hoje em dia esse tipo de pensamento adquiriu outras nuances e um caráter diferente — tem mais relações com uma identidade do que com uma imagem aparente. No que tange ao início da carreira profissional, precisei aprender a me portar como as pessoas ao meu redor se portavam. E aí começa toda uma brincadeira de cópias, simulacros, retificações e ratificações. Eu olhava como as pessoas falavam, gesticulavam, riam, se portavam. Internalizava esses gestos, observava mais um pouco e, com uma certa dose de desconfiança, reproduzia aquilo da minha maneira.

eric03

Muitas das expressões que utilizo em meu cotidiano foram copiadas de alguém que disse para mim, ou alguém que vi dizendo, às vezes somente li em algum lugar. Os jargões, bordões e frases de efeito utilizadas em sala de aula também tiveram, em sua maioria, origens com outros professores com quem trabalhei ou estudei. Conforme o tempo foi passando, sofreram suas mutações naturais, evoluindo para algo mais próprio ou morrendo no meio do caminho — uma espécie de darwinismo cultural.

Contudo, eu não era um mero papagaio sem expressão própria e, mais importante, aprendi a diferenciar entre um comportamento aceitável e uma postura errada. Porque essa me parece uma daquelas lições importantes que esperamos aprender em algum momento: nossa vida é a soma de outras vidas. Dizendo de outro modo, aquilo que entendemos como nossa própria personalidade é uma espécie de colcha de retalhos de outras personalidades, que escolhemos costurar para si. Sem nem perceber, fazemos isso a vida toda — e é exatamente assim que a criança aprende suas primeiras coisas, com os pais, os avós, as pessoas mais próximas e, futuramente, com a escola. Por isso, dizer que “professor não é educador” me soa bastante ingênuo — mas tenho algumas ressalvas, então deixemos para outro episódio dessa temporada.

Não somente de impressões sobre o mundo, fazemos cópias de expressões sobre o mundo, nossas atitudes: as falas, os gestos, as piadas, as idiossincrasias, modos de agir em geral. Isto exige uma vigilância constante, pois estamos fadados a estarmos errados. Então, não é inerentemente ruim estar errado; ruim, mesmo, é não perceber-se errado e, ainda pior, não agir para que isto seja modificado.