Um curso regular de ciências é quase como uma boa série televisiva

Costumo brincar com os alunos, vez ou outra, sobre estarmos na Nª temporada de Física [nomedaescola], aproveitando a situação para discutir alguma ideia sobre esse universo estranho que a Física pode ser. É uma maneira ~divertidinha~ que a gente inventa nuns dados momentos das aulas para fazer menção àquele personagem da temporada passada, que todo mundo pensou ter morrido mas apenas esteve desaparecido numa floresta, se alimentando de frutos e restos animais, ou para deixar um pequeno spoiler sobre um casamento muito bizarro que vai ocorrer dentro de algumas semanas, entre duas personagens visualmente bastante distintas.

Traduzindo para o universo da Física, trata-se de um recurso narrativo para relembrar algum ente físico estudado em aulas anteriores, bem como mencionar que, em aulas futuras, aquilo que está sendo estudado no momento voltará a ser mencionado, numa fusão de ideias e de conceitos.

Você pode até me dizer que isto é típico do professor faceirão de cursinho, que leva o violão pra sala de aula e mostra sua mais nova paródia da música Yesterday, dos Beatles — supostamente uma maneira lúdica e inovadora de ensinar o conceito de reação química para alunos do primeiro ano do ensino médio. Mas existe uma boa gama de paralelos e aproximações que podemos traçar entre um curso regular de ensino e uma boa série — daquelas que a gente comenta com os amigos em ocasiões festivas e evita as redes sociais para não se deparar com possíveis informações soltas que preferíamos não ter acesso antes de assistir ao episódio.

Ao meu ver, existem duas características matadoras presentes nas melhores séries que nós, jovens adultos, presenciamos nos últimos anos:

1 — Uma boa série sabe, desde seu começo, para onde está indo.
2 — Uma boa série, apesar de bem contada e “bem explicada”, nunca é fechada em si mesma.

E acredito que isso tenha muito a ver com um curso regular de qualquer coisa que seja. Para fins de entendimento, vou utilizar como base um curso de Física do ensino médio, por ser algo mais próximo de minha vivência. Mas acredito que valha para qualquer outra área de conhecimento, em qualquer nível de ensino. Fiz uns testes mentais — de 13 segundos — com português do ensino fundamental I e funcionou bem.

(Todas as histórias de terceiros são fictícias e nenhum animal foi ferido para a redação deste documento.)

Uma boa série sabe, desde seu começo, para onde está indo

O tempo é um círculo plano, amigo

Em toda série televisiva, existe uma equipe razoavelmente grande que cuida de vários detalhes sobre a produção daquele conteúdo. Dois desses papéis importantes são o do roteirista, ou da equipe de roteiristas, e do diretor. Sendo um roteiro novo ou adaptado, pouco importa; o material será trabalhado de modo a traçar um fio condutor para a narrativa, levando em consideração elementos inerentes daquele tipo de mídia. Afinal, não é somente uma história, como consta num livro; ela possui elementos visuais em movimento. Ademais, sua característica episódica e seriada também é fundamental para contar algo a alguém.

No início da jornada, a produção já conhece seu fechamento

Isso significa dizer que aquela história possui um objetivo. Ela tem início, fim e meio. E aquilo que considero fundamental: no início da jornada, a produção já conhece seu fechamento. Pode ser que, no meio do caminho, o espectador sinta-se perdido. Isso é normal e, na maioria dos casos, desejado pela série. Faz parte de uma trama envolvente aquela boa dose de mistério, uma certa aura de insegurança: a série está te conduzindo — às vezes pela mão, noutras andando alguns passos à frente.

Um bom curso escolar pode se parecer com isso. Além do planejamento anual, feito no início do ano letivo, existem sequências didáticas abrangendo um número determinado e específico de aulas — não há um número fechado; podem ser 2 ou 20 aulas, a depender do que foi programado. Isto significa dizer que também há um objetivo ali; o que o professor está dizendo, contando, mostrando, pedindo, construindo etc é uma peça desse quebra-cabeças. Como o “roteirista” dessa série, ele têm às mãos muito mais dados do que seus alunos. E, atuando como “diretor” da peça, constrói a teia narrativa que permite aos alunos-espectadores compreender a trama subjacente e construir, por si mesmos, sua própria estória.

Não adianta simplesmente entregar os fatos porque eles não são um dado pronto; precisam ser internalizados pelo aluno. No meio do processo, o professor-diretor percebe que a plateia encontra-se confusa; afinal, estamos passando por um momento delicado, porém importante, escrito pelo professor-roteirista. Uma boa direção conduz o foco do espectador para aquilo que considera importante. O professor-diretor auxilia os alunos relembrando de dados importantes, fazendo-os notar o que parecia escondido.

Pessoalmente, não gosto do excesso de didatismo que encontramos em muitas obras cinematográficas por aí. Essa seria uma grande diferença entre um bom diretor-professor e um bom diretor-de-cinema. Para o primeiro: quanto mais didático, melhor. Já no segundo caso, é bom evitar: o espectador quer pensar sozinho — mostre, não conte. Mas isso foge um pouco de nosso escopo.

Uma boa série, apesar de bem contada e “bem explicada”, nunca é fechada em si mesma

We all get what we deserve

As pessoas gostam de explicar as coisas. Sentir-se ignorante sobre algo nos causa desconforto. Queremos saber o quanto antes, o mais rápido possível, de forma a responder corretamente quando formos questionados, esboçando o sorriso da vitória. Assim, é fácil entender porque muitos espectadores ficam extremamente irritados com pontas soltas ao final da jornada.

Existem situações nas quais esses espectadores têm razão. Algumas séries deram enormes barrigadas, inventando uma miríade de mistérios sem fim, numa espécie de encheção de linguiça que, além de não serem funcionais para a trama, possuíam uma característica gravíssima: não havia explicação alguma. Os fãs defensores dirão que não é bem assim, que poderia haver diferentes interpretações e tal; mas aposto que após algumas rodadas de jägermeister com os roteiristas minha tese se provaria verdadeira: essas pistas falsas eram apenas um recurso para prender a plateia. E nada mais.

Contudo, pontas soltas não são necessariamente um “estelionato cinematográfico”. Eu diria que são mais comuns do que parecem. Ademais: têm mais valor do que julgamos.

Ao contar uma boa história, nem sempre temos oportunidade de explicar todas as relações entre diferentes fatos. Existe um fio condutor contendo a narrativa principal. Ele é entremeado de outras linhas, que ajudam a tecer o argumento, além de dar corpo e textura. Essas linhas alternativas possuem também seus desdobramentos, já que não se tratam de meras “muletas de roteiro”. Tais desdobramentos fazem parte de universos próprios, externos àquele da história sendo contada. Cabe ao espectador se aprofundar nestes universos, se assim desejar.

Buscar universos paralelos ajuda o espectador a construir novas histórias. As suas histórias.

Algumas perguntas ficarão sem respostas. E não há problema algum nisso

Ocorre algo parecido num curso escolar. O professor tem por objetivo fazer seus alunos aprenderem uma série ferramentas cognitivas e dominarem uma determinada gama de conhecimentos. Não é possível, porém, dar conta de tudo. Algumas perguntas ficarão sem respostas. Até mesmo porque, diferentemente dum seriado televisivo, cursos escolares possuem duração limitada, estabelecida e curta — o leitor poderia argumentar que seriados de TV também possuem suas limitações de produção, mas concordemos que possuem muito mais flexibilidade do que um Ensino Médio.

O estudante que se cativou pelas aulas-episódios, que conseguiu se deixar levar pela direção de seu professor, certamente se deparou com essas pontas soltas de universos paralelos. Algumas perguntas conseguiu fazer, obtendo respostas mais ou menos vagas. Noutras, não teve sorte, pois não era o momento certo. Mas a semente da busca ali se instalou; agora, passou de um simples espectador passivo para um conspirador ativo. A série-curso chegou ao fim, mas os ensinamentos são eternos.

Quem sabe até mesmo passará a escrever novas histórias para novos estudantes.

Um último adendo: espectador ou protagonista?

Por fim, é importante frisar que, nesta comparação entre curso escolar e série televisiva, o aluno está sendo considerado um espectador; sua participação reduz-se, portanto, a assistir, não fazendo parte da produção daquela obra audiovisual.

Não é essa a maneira que julgo mais adequada de trabalhar. Reduzir o aluno a um mero espectador passivo, sem opiniões e contribuições a dar, é matar sua curiosidade científica. O aluno deve, sim, fazer parte dessa produção. Mesmo que isto não ocorra o tempo todo, por uma série de razões, devo buscar maneiras de viabilizar este processo.

Numa postagem relativamente antiga, comentei sobre um texto do professor Luis Carlos de Menezes, professor e orientador na pós-graduação na USP. No artigo Aulas-cenas, publicado na primeira edição da Revista Magistério, Menezes faz uma comparação entre uma aula, ou conjunto de aulas, e a realização de um filme ou espetáculo teatral:

As aulas são as cenas, as etapas são os episódios e o filme é a realização de todos. Os alunos são a um só tempo os intérpretes, os iluminadores, os câmeras, partícipes ativos da obra coletiva de aprender. As primeiras aulas servirão para a preparação do elenco, as seguintes são como ensaios, até que todos possam participar para valer da filmagem do que foi previsto no roteiro.

Na proposição das atividades que constroem o aprendizado, a professora ou o professor tem, sobretudo, a função do produtor, mas, em cada aula, eles dirigirão as cenas e seus alunos serão seus protagonistas e coadjuvantes, o espetáculo formativo sendo ainda melhor se todos fizerem conscientemente seus papéis.

Contudo, a proposta deste texto que hoje escrevo é discorrer sobre um dos aspectos de uma aula. Em alguns momentos o aluno acaba, sim, atuando como espectador. Em alguns momentos isto é, sim, desejável, pois faz parte da construção de uma narrativa.

Não precisa ser assim o tempo todo. Mas também não é demérito que, às vezes, assim o seja.

Algumas séries, assim como alguns professores, não são tão boas assim

Existem séries boas, existem bons professores. Em um esforço imaginativo, podemos comparar professores com certas séries famosas que, por um motivo ou outro, não são lá grande coisa. Algumas prometeram muito mas morreram na praia, outras são ruins de dar dó e algumas… bem, a gente meio que atura porque sim. Vejamos alguns exemplos.

O professor ‘Lost’

“Prófeshow” das aulas mirabolantes que não chegam em lugar nenhum
Imagem de Jack, da série televisiva 'Lost', produzida pela ABC
Eu não tenho a menor ideia do que tô fazendo aqui, véi.

Alguns professores são muito queridos pelos alunos. Podemos pensar no caso daquele que chega na escola já cativando a galera com sua simpatia, energia, animação, seu jeito todo extrovertido e especial de dar aulas. Em outros momentos, conta fatos super interessantes sobre a ciência, narra eventos históricos, cria uma atmosfera de mistério e suspense. Exibe vídeos, filmes, entrevistas, toca tambor, assa uma pizza e ensina a tricotar bolsa de barbante.

No meio da euforia, os alunos começam a se perguntar: mas como ele pretende juntar tudo isso? Qual é o objetivo dessa montanha de dados para o curso que ele está lecionando?

Pois bem: não há objetivos. Esse professor não tem a menor ideia de onde quer chegar. No meio do caminho se empolgou demais, perdeu o controle e agora estuda maneiras de voltar no tempo sem ninguém reclamar muito. Suas provas cobram capítulos do livro que não foram discutidos em aula, pois a turma estava ocupada cantando kumbaya no pátio.

Lost foi uma premiada e aclamada série de televisão norte-americana de drama e ficção científica que seguiu a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical, após o avião que viajava de Sydney, Austrália para Los Angeles, Estados Unidos cair em algum lugar do Oceano Pacífico. Produzida pela ABC Studios, teve 6 temporadas, sendo exibida entre 2004 e 2010. (Wikipédia)

O professor ‘Dexter’

Começa muito bem mas acaba muito mal
Personagem Dexter, da série homônima, produzida pelo Showtime
Que morte horrível.

Essa é uma história levemente trágica, então maneiremos do humor ácido.

Um professor maravilhoso, amado por seus alunos, querido pelos colegas e a joia rara da instituição. Bem assentado em sua carreira, tem um início promissor, rapidamente conquistando o respeito das pessoas a seu redor. É funcionário exemplar e dedicado, sabe o que está fazendo e tem domínio técnico sobre sua área de atuação. Ética impecável. Estética admirável.

Mas aí acontece alguma coisa qualquer — ex.: cansou de lecionar; entrou em conflito com os gestores da escola; apercebeu-se da finitude da vida e de nossa insignificância perante o universo etc etc — e tudo desanda de um jeito desastroso. Passa a faltar com seus compromissos, muda completamente de aparência e torna-se irreconhecível. Sua postura, outrora amável, agora é taciturna. Toma decisões equivocadas, sem sentido; o que aconteceu com aquela alma iluminada que tanta esperança nos dava? As pessoas passam a evitá-lo e falar mal de sua pessoa nos corredores.

Em poucos momentos de lucidez, até percebe a situação delicada na qual se encontra, tentando resgatar o pouco de respeito que ainda possui. Em vão; não possuindo mais nenhum resquício do famigerado brilhantismo apresentado no início da carreira, desiste de vez e chuta o pau da barraca.

No último ano atuando como professor, usa a mesma blusa surrada para trabalhar, todos os dias. Faltando duas semanas para o término do período letivo, vende sua casa e não aparece mais, sem avisar ou prestar contas. Hoje trabalha num sebo no interior do estado e conta as horas para a chegada do domingo.

Domingo é dia de jóquei.

Dexter foi uma série televisiva americana de drama/suspense centrada em Dexter Morgan que, valendo-se do fato de ser um especialista forense em análise sanguínea e de trabalhar no Departamento de Polícia de Miami, mata, de um modo bem meticuloso e sem pistas, criminosos que a polícia não consegue trazer à Justiça. Produzida pelo Showtime, teve 8 temporadas, exibidas entre 2006 e 2013. (Wikipédia)

O professor ‘How I Met Your Mother’

Engraçadinho e bobinho; a gente até atura, mas sabe que não é lá grande coisa
Imagem de da série televisiva 'How I Met Your Mother', produzida pela CBS
Quanto falta pra bater o sinal?

Esse tipo de professor costuma dividir a turma em duas facções diametralmente opostas: ou você a m a (miga me dá um tiro essa série é mara) ou você odeia. Existe também a galera que não tá nem aí, mas esses são muito espertos para serem figurantes em um texto supostamente engraçadinho, então vamos deixar para lá.

Costuma ser o professor engraçadão, cheio das gags e piadinhas prontas. Faz graça consigo mesmo e com os outros, nunca tendo medo de ser feliz. Alguns acham engraçado, os fãs sempre dão risadinhas, aqueles que não suportam viram os olhos a cada sílaba proferida — dizem que ele é forçado e fica copiando os outros. De vez em quando, um pequeno grupo vai à coordenação reclamar que o projeto de Bozo não tá dando aula e só fica contando piada. O coordenador dá de ombros; ele traz matrículas, deixa pra lá e volta pra sala, beijo.

No final das contas, é inócuo; pode não ser a melhor coisa do mundo, mas consegue carregar o curso e não faz estragos. Poucos se lembram de cumprimentá-lo no baile de formatura.

How I Met Your Mother foi uma premiada sitcom americana que mostrava Ted Mosby, em 2030, narrando aos seus filhos a história de como conheceu a mãe deles. Produzida pela CBS, teve 9 temporadas, exibidas entre 2005 e 2014. (Wikipédia)

O professor ‘Doctor Who’

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Essa série não acaba nunca mddc

Sabe aquele professor que demora para se aposentar?

Então.

Doctor Who é uma série de ficção científica britânica que mostra as aventuras do Doutor, um Senhor do Tempo, alienígena do planeta Gallifrey, explorando o universo em sua máquina do tempo, uma sensível nave espacial conhecida como TARDIS (Time And Relative Dimension(s) In Space), cuja aparência exterior se assemelha a uma cabine de polícia londrina de 1963. Produzida e transmitida pela BBC desde 1963 possui, até o fechamento dessa edição, 36 temporadas. (Wikipédia)

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E você, consegue imaginar outros tipos de ‘professores seriados’? Deixe sua opinião nos comentários!