Que tipo de escola quero para mim?

Foi a pergunta que me fiz certa manhã, no meio do barulho de uma conturbada não-aula. Digo não-aula pois não era possível ministrá-la como planejado, uma vez que 90% dos alunos (dado fornecido pelo Instituto Meu C* de Estatística) se ocupava de outras atividades menos fortuitas — conversar com o colega, tirar selfie com filtro de cachorrinho no snapchat, jogar truco, dormir. Enquanto olhava para a sala, numa mistura de cansaço, perplexidade e resignação, pensava: não é isso o que quero para mim; o que, então, eu quero para mim?

Não quero que esse texto seja encarado como o desabafo de um professor amargurado pelas agruras da profissão. De fato, esperei um bom tempo para escrevê-lo, deixando as ideias incubarem na cachola por algumas semanas e reservando um dia das férias escolares para fazê-lo. Prefiro que ele seja encarado como se pretende: uma reflexão sobre o que a escola é, o que ela pretende ser e o que a torna uma boa escola, tanto como observado pelo professor quanto na concepção do aluno.

Neste exercício de reflexão, pretendo abordar ambos os modos de enxergar a questão. Não acredito que sejam diferentes pontos de vista porque, na minha concepção, possuem áreas em comum. Apelando para meu lado das exatas, poderíamos representar essa situação com um belíssimo diagrama de Venn; a intersecção entre os dois conjuntos representaria o cenário mais favorável. É muito mais simples para mim, no momento atual, escrever aquilo que o professor pensa, uma vez que deixei de ser aluno – principalmente do ensino médio – há algum tempo. Contudo, ao invés de separar em coisas que o professor quer e coisas que o aluno quer, resolvi simplesmente escrever sobre coisas que eu quero — e fica a critério de você, professor ou aluno, reconhecer-se ou não em cada um dos pontos apresentados.

Diagrama de Venn representando os interesses do professor e do aluno acerca da questão "o que é uma boa escola para você?". Poderíamos ter adicionado outros conjuntos — como, por exemplo, a visão da família — mas você entendeu a ideia como um todo ;)
Diagrama de Venn representando os interesses do professor e do aluno acerca da questão “o que é uma boa escola para você?”. Poderíamos ter adicionado outros conjuntos — como, por exemplo, a visão da família — mas você entendeu a ideia como um todo ;)

Antes de continuarmos, um lembrete importantíssimo: eu estou generalizando. Muitas escolas se encaixam em minhas críticas. E muitas escolas não se encaixam em minhas críticas. O fato de utilizar um exemplo X que ocorre na escola Y não nega a ocorrência de W no colégio Z. Mais ainda: eu dizer que X ocorre em muitos Ys não destrói os bons exemplos de Zs, onde ocorre W com frequência. Gosto de um debate saudável, desde que todos os termos sejam esclarecidos. E se você, leitor, tiver bons exemplos que destruam meus argumentos, ficarei contente de lê-los na caixa de comentários! (:

Quero uma escola que me permita trabalhar

Essa me parece uma reivindicação importante e recorrente. A reclamação que mais me faço é: não consigo trabalhar com essas turmas — seja por indisciplina, desinteresse, incompatibilidades de objetivos. Outro pensamento triste que às vezes bate às portas da mente: faz tempo que não dou aulas, no sentido mais estrito da expressão. A gente se vê reduzido a aplicador de pacotes curriculares, meramente cumprindo os conteúdos do material didático.

Neste ínterim, me pego num fogo cruzado, tentando gerenciar os interesses da escola e as expectativas e frustrações dos alunos, quando confrontados com o fracasso escolar. Sendo ainda mais crítico comigo mesmo e com as definições da minha atuação docente, costumo concluir que aquilo que fazemos não passa de mera enganação: vamos de lugar nenhum, rumo a lugar algum. Estamos nos enganando e enganando aos outros, mesmo quando não nos damos conta.

Posso ser menos alarmista e mais pragmático, ao pensar que não há necessidade de exageros: as coisas são do jeito que são, algumas vezes bem ruins, noutras vezes não tão ruins assim. Lecionar, portanto, implica em reconhecer esses espaços de atuação, identificando as melhores propostas de intervenção que me permitam chegar aos objetivos traçados no início do planejamento.

Vamos de lugar nenhum, rumo a lugar algum

Contudo, fica a ênfase, retomando a ideia inicial: eu preciso ter esses espaços de manobra, para atuar de modo coerente, tanto com minha concepção de ensino quanto com aspectos mínimos de humanidade. O que significa dizer que às vezes eu precisarei bater mais o pé para defender minhas convicções, em outros momentos terei que escutar um conselho sábio e ponderado — seja de esferas hierarquicamente superiores a mim (coordenação, direção), seja de meus próprios alunos. Porém, não importa o cenário, uma coisa é certa: as decisões a serem tomadas precisam ter como fundamento primordial o ensino. Esse é o objetivo da escola e qualquer coisa que fuja muito disto não faz o menor sentido.

Quero uma escola que não se entenda como um negócio

Se o objetivo da escola é ensinar algo aos alunos, algo este especificado em seu currículo, as decisões tomadas por seus participantes precisam girar em torno desse tema. Dizendo de modo mais direto: eu não posso me preocupar com determinada atitude minha única e exclusivamente por causa das represálias que ela desencadeará. Deixar de fazer isto ou aquilo por uma questão financeira é rasgar o diploma e cagar no estatuto do colégio.

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“Parmi les choses qui ont changé de 1969 a 2009” (Entre as coisas que mudaram de 1969 a 2009, em tradução livre), publicado no Ouest France, por Emmanuel Chaunu. A referência já é um clichê, mas ilustra bem o pensamento mercadológico presente na cabeça de muitas famílias e alunos. Vale mencionar que ambas situações são pedagogicamente equivocadas.

Isso costuma se fazer bastante presente em instituições de ensino privado. Até consigo entender a lógica por trás de alguns argumentos, uma vez que precisa haver fluxo de capital para manter a escola em seu pleno funcionamento — inclusive para permitir que se pague muito bem (cof, cof) seus funcionários em todos os setores. Porém, não é possível defender uma retórica que deturpe a qualidade do ensino com base em preconceitos de pessoas de fora do âmbito escolar e em achismos gerais sem fundamento algum.

Se o objetivo da escola é ensinar algo aos alunos, as decisões tomadas precisam girar em torno desse tema

Uma situação corriqueira e já debatida um pouco em outro post: notas ruins obtidas pelo aluno numa avaliação ou na média de um período letivo (bimestre ou trimestre, dependendo da instituição). Além de serem contestadas em alguns momentos pelos pais ou responsáveis, podem ser também motivo de questionamentos por parte de alguns gestores escolares. A explicação é simples: se o aluno não obtiver notas melhores, os pais vão tirá-lo da escola, e isso é ruim para nós.

Entendo. Mas: como exatamente eu posso ser responsabilizado por isso? O professor não tem controle sobre as variáveis que influenciam no ato de um pai ou mãe matricular sua filha ou seu filho nessa ou naquela escola. Ademais: mesmo tendo controle sobre certas variáveis, como a nota do estudante, não cabe a este encarar tal número como um prêmio aleatório. Por mais dilacerada que esteja a lógica da nota, por mais que ela seja ultrapassada em muitos sentidos, por mais anacrônica, arcaica e desprendida que seja da realidade atual, ela precisa ter coerência interna. Dizendo de outro modo, aquela nota possui, sim, um significado e deve ser minimamente levada em consideração. Em caso contrário, vira passeio.

Ainda nas instituições particulares, mas também presente na rede pública de ensino, bem como em escolas confessionais, temos uma miríade de outros tabus que, do ponto de vista da família, não deveriam ser discutidos num ambiente escolar, em decorrência de potencialmente ofenderem suas religiões, concepções de mundo e ideologias político-partidárias. Todo mundo quer saber mais sobre o que o professor deve ensinar do que o próprio professor.

Atualmente, muito se fala sobre o projeto de lei que visa incluir o “Programa Escola sem Partido” entre as diretrizes e bases da educação (lei 9394/96). Ao que “tudo” indica, como consta na justificativa do projeto (os grifos são meus):

É fato notório que professores e autores de materiais didáticos vêm se utilizando de suas aulas e de suas obras para tentar obter a adesão dos estudantes à determinadas correntes políticas e ideológicas para fazer com que eles adotem padrões de julgamento e de conduta moral – especialmente moral sexual – incompatíveis com os que lhes são ensinados por seus pais ou responsáveis.

Todo mundo quer saber mais sobre o que o professor deve ensinar do que o próprio professor

Não é objetivo desse texto discutir o projeto, tampouco suas premissas e justificativas; algumas pessoas fizeram seus comentários em redes sociais internet afora e recomendo para quem tiver interesse (aqueles que se opõem às minhas opiniões dirão que minhas recomendações são enviesadas, e eu responderei com um evidentemente que sim). Meu foco no momento é essa troca de papéis entre a responsabilidade do professor e a responsabilidade do pai.

De modo algum sou contra a participação da família na escola; meu pensamento é diametralmente oposto. Em ambientes de diálogo entre escola e família, é mais fácil observarmos uma convergência de ideias e valores. É nessa troca de experiências, expectativas e conhecimentos que se constrói aquela boa escola para aquela dada comunidade. O problema é que isto simplesmente não ocorre. Poucos pais participam do cotidiano escolar, mesmo quando a escola oferece abertura. E em muitas escolas não existe espaço para essa conversa, mesmo quando os pais demonstram interesse e buscam cobrar por uma postura dialógica. No final das contas, quem sai perdendo é o aluno. Porque nessas de ninguém ouvir ninguém, o que opera é a lógica do mercado: money talks.

Acaba que a escola, entendida como espaço de debate de ideias, vê-se reduzida a várias outras coisas, porém nenhuma delas ligeiramente próxima ao conceito inicial. Não se pode debater muita coisa sem ser taxado de doutrinador. Falar sobre identidade de gênero ainda é um gargalo delicadíssimo. Racismo, homofobia e misoginia simplesmente não existem no mundo do brasileirinho. Entre outras ficções da contemporaneidade.

Quero uma escola que me permita crescer

Sendo a escola um espaço social para o aprendizado de valores socialmente construídos e de conhecimentos acumulados pela humanidade ao longo de toda uma tradição histórica, ela deve ser também um espaço de crescimento, tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional.

A escola precisa ser um espaço de crescimento pessoal e profissional

O aluno precisa crescer ali dentro, não somente segundo aspectos biológicos. Crescimento do aluno, como aqui estamos dando a entender, implica em sua evolução como ser humano. Afinal, passamos a maior parte de nossa infância — quando não sua totalidade — dentro de uma escola; portanto, somos educados por ela e por todos seus atores. Nossas concepções de vida, preconceitos e valores são costurados pelas vidas de outras pessoas, tema que pretendo desenvolver em outra publicação. Deste modo, desprezar os efeitos educadores da escola, encarando-a como um mero espaço de ensino de conhecimentos, formatado em disciplinas clássicas (português matemática história etc etc), me parece leviano.

E o professor também precisa crescer dentro da escola, o que me leva à pergunta trivial: como isto pode ocorrer?

Podemos pensar, inicialmente, com sua promoção para outro cargo superior, por exemplo na gestão escolar — orientação pedagógica, coordenação de área, chefe de departamento, entre outros. Isto significaria, em termos mais práticos, evolução salarial e crescimento hierárquico, o que soa bastante razoável e, acredito, é almejado por um bom número de docentes. Por outro lado, dentro de meu entendimento, estaríamos trabalhando em outra coisa, estando fora da sala de aula; não seríamos mais professores num sentido estrito da palavra. Evidentemente não se desmerece nenhuma dessas atividades; só acho necessário pontuar corretamente a área de atuação de cada uma delas.

Outro modo de se crescer profissionalmente, ainda lecionando em classe, seria obtendo prestígio e visibilidade dentro da própria escola. Ser aquele professor reconhecido pelos alunos, pelos colegas, pelos pais, pela instituição em si. Tornar-se um ponto de referência na comunidade — a professora de Biologia do Colégio MeuDeusinho é um crânio, você não tem ideia!; o professor de Literatura da Escola AiPapai é um gênio, amo aprender com as interpretações teatrais; a professora de Matemática do Instituto MundoBom é muito fera, aprendi tanta coisa legal que já nem cabe num tweet e assim por diante.

Com esse reconhecimento, torna-se possível, então, crescer também para outras instituições educacionais de maior prestígio ou que se alinhem mais com suas concepções de ensino. Amar alguém também significa saber dizer-lhe adeus. Por melhor que tenha sido o trabalho do professor naquela escola, por mais que ele sinta-se confortável e seguro com o ambiente de trabalho, por mais fortes e sólidos que sejam seus laços com alunos e colegas, às vezes chega aquele momento em que ele precisa de novos ares, novos rumos, novos projetos. Construção e destruição andam de mãos dadas.

Ao mudar de vida para crescer profissionalmente, o professor pode embarcar em novos projetos, ainda embutidos na área do ensino: escrever livros, publicar artigos, gravar vídeos etc. Vale notar que isto não demanda, necessariamente, seu desligamento da atividade docente; é totalmente possível — bem como frequentemente observado — dedicar-se a projetos paralelos em concomitância com a atuação em sala de aula. E é justamente por isso que dou ênfase à escola que permita tal crescimento. Porque não sobra muito tempo para escrever o roteiro de uma videoaula se preciso preparar e corrigir atividades não planejadas somente para aumentar as notas dos alunos.

Quero uma escola que seja um espaço de respeito

Durante minha carreira docente, trabalhei muito — e ainda trabalho — com plantões de dúvidas e aulas de reforço. Nos últimos anos venho auxiliando meus próprios alunos em aulas no contraturno. Porém, em sua maioria, lidei com alunos de outros professores, o que considero um benefício para o estudante, oferecendo novas abordagens para o tema de estudo.

O que ainda me choca e entristece é ouvir alunos dispararem impropérios sobre seus professores com coisas do tipo:

Aquela professora é uma vaca, não entendo nada do que ela diz.

Estou parafraseando, permitam-me. Mas quando essa fala vem de uma criança no auge de seus 12 anos, o alarme dispara: tem alguma coisa muito errada aí. Na minha cabeça, é óbvio que esse tipo de coisa só pode ter vindo de casa. O tipo de expressão que ela ouve da mamãe conversando com as amigas no jantar de sábado. A fala empregada pelo papai no churrasco de domingo com os amigos do futebol. E, com isso, a repetição entre os filhos desses papais e mamães na matinê de sexta-feira ou no playground do condomínio. Mas, é claro, eu posso estar errado.

O aluno violentado pelo professor torna-se um professor violentado pelo aluno.
O aluno violentado pelo professor torna-se um professor violentado pelo aluno. Fonte: http://la-caricature-de-l-ecole.e-monsite.com/pages/l-evolution-des-mentalites.html.

Na outra ponta do jogo de poder, existe o professor como vetor de preconceito e discriminação contra seus próprios alunos, alguns deles velados, outro bastante explícitos. Isto pode ser notado em conversas na sala dos professores ou nas reuniões de pais e mestres — que nome pomposo, “pais e mestres, não é mesmo? Assim, é desagradável ouvir que a fulaninha pegou todos os moleques da sala, já; meio putinha, né? (risos) ou que o rapazinho ali, ainda novinho, já tem aquele jeitinho de viado, né? (risos). Além dos famigerados exemplos que atestam como seu aluno é b u r r o pois veja o que escreveu nessa prova, olha que conta absurda, escuta essa que me perguntaram em sala agora et coetera.

Dizendo desse jeito, pareço estar: (a) pintando uma imagem demonizada de todos os professores e (b) dizendo que, como um ser iluminado que sou, não faço e nunca fiz nada disso. Não é o caso. Já discorri muito sobre o erro em postagens anteriores e não pretendo me repetir. Porém, uma opinião gratuita: se você se ofendeu com o que eu disse, vale a pena pensar a respeito.

Mas, é claro: eu posso estar errado.

Um espaço de respeito não irá eliminar esse tipo de atitude. Até mesmo porque somos seres humanos e erraremos na maior parte de nossas vidas. Mas: o mínimo precisa ser garantido. Os alunos querem ser ouvidos; eles querem participar da tomada de decisões, eles querem orientar o futuro da escola, eles querem fazer parte dessa comunidade escolar — estou sendo idealista demais? E os professores também querem seu espaço de fala, até mesmo para garantir os outros tópicos mencionados acima. O que me leva ao último e próximo ponto.

Quero uma escola que seja relevante

A cereja do bolo, a menina dos olhos, o sonho do brasileirinho: uma escola relevante, ou seja, que faça sentido. Tanto professor quanto aluno querem não mais se deparar com a famosíssima pergunta: para que isso vai servir na minha vida? Pois, se isto foi perguntado, é porque aquilo que está sendo trabalhado não parece importante, não tem significado real, em suma, não foi requisitado por ambas as partes.

Essa, ao meu ver, é a ideia mais profunda por trás dos meus desejos de uma escola ideal. Parece ser, também, a reivindicação mais importante feita pelos alunos — vide os recentes movimentos de estudantes secundaristas nas escolas da rede pública do estado de São Paulo. E é também a questão mais difícil de se trabalhar, porque não apresenta respostas fáceis. Em linhas gerais, não apresenta resposta alguma pois: o que significa a escola fazer sentido? Ela precisa ensinar aquilo que o aluno gosta? A escola precisa de matérias mais úteis? A escola precisa servir para as coisas?


Honestamente: não tenho a menor ideia. Acho difícil pensar em termos de uma escola nova trabalhando em um sistema tradicional de ensino. Existem salas de aula, aquele espaço físico clássico, com carteiras escolares clássicas, uma lousa clássica (seja ela de giz, caneta ou digital), na qual o professor escreve conteúdos clássicos para uma plateia de alunos classicamente sentados em seus locais. O ensino é baseado em conteúdos, que são ditados pelo livro didático ou pela apostila do sistema; ao final do ano, é necessário que todo aquele conteúdo tenha sido ministrado. Os alunos que supostamente aprenderam o que foi ensinado pelo professor tiram notas boas nas avaliações, geralmente uma por mês; ao restante, resta a vergonha e a cobrança — da escola, dos pais, de si mesmos.

Mais um ano se passou e eu não usei a fórmula de Bháskara
Tá bom, mas não se irrite.

Não compactuo com a visão de uma escola utilitarista; costumo dizer para os alunos que não se trata de um ensino técnico, no qual aprendemos a manejar ferramentas (físicas ou mentais) para serem aplicadas em situações práticas ou, ainda pior, do cotidiano. Afinal, a expressão [erroneamente] conhecida como fórmula de Bháskara não é necessária para você comprar pão ou dirigir um trator sem camisa. Ela serve para resolver equações de segundo grau. E se começarmos a nos perguntar por que o aluno precisa saber resolver uma equação de segundo grau? entraremos num loop infinito.

Por fim, ainda não sei o que eu quero. Só gostaria que me fosse permitido questionar a utilidade daquilo que estamos fazendo sem encarar olhares de desalento ou escutar que as coisas são assim mesmo. Elas até podem ser, mas não significa que precisem continuar sendo.

E você? Que tipo de escola quer para si e para os outros?

Vida após a escola, rotina de trabalho e a aparente falta de sociabilidade do professorado

(Esse texto foi originalmente postado há alguns anos em meu perfil do facebook e agora parcialmente revisado, com pequenas alterações aqui e ali. A ideia era cortar ao máximo, mas parece que falhei na missão. Nada de novo no front, meus amigos. Vida que segue.)

As aquarelas que ilustram esse post são de Marcos Beccari. A capa é de Allisson Diaz.

Muito se discute sobre como é a vida de um cidadão recém-formado no ensino médio. Nesse quesito, há geralmente duas linhas de pensamento, muito divergentes entre si: uma defendendo que tudo melhora e outra defendendo que tudo piora. Queria expor aqui um pouco da minha visão e mostrar as nuances sobre cada uma delas.

Na primeira linha de pensamento, acredita-se que o mundo escolar é uma estupidez sem tamanho. Que fazemos as coisas de forma obrigada, sem autonomia sobre nossas ações nem liberdade de escolha. Que o conhecimento escolar é irrelevante e sem significado para o MUNDO REAL. Assim, após nos libertarmos da escola, temos, enfim, a oportunidade de começar a VIVER DE VERDADE: faremos nossas escolhas na vida, estudaremos aquilo que nos interessa para executar ações que nos interessam.

Indo na contramão, a segunda linha de pensamento diz que, após a escola, estamos fadados à infelicidade. Saímos de uma bolha de conforto extremo e somos massacrados pelo MUNDO REAL. Enquanto na escola todas as ações são controladas e planejadas por sujeitos externos, nesse mundo pós-escola somos obrigados a VIVER DE VERDADE. Precisamos trabalhar, ganhar dinheiro, nos sustentar, nos submeter a algumas situações pouco desejáveis simplesmente porque sim. E tudo isso é um saco.

Eu vivo uma filosofia meio BUDISTA que sempre busca o caminho do meio, a terceira margem do rio. Então não concordo com nenhuma dessas linhas de pensamento; pode-se dizer que acredito num híbrido das duas.

De fato, a escola atual está presa ao passado e num iminente colapso. As situações ali vivenciadas não se conectam à realidade, o suposto conhecimento que, via de regra, deveria ser transmitido – e é importante ressaltar o grande absurdo que é acreditar num conhecimento “transmissível”, como se fosse uma doença ou um aplicativo a ser instalado – nunca o é, ou, quando é, não tem significado. E, talvez o mais importante: o aluno não se importa com a escola principalmente porque ele não PEDIU por aquilo; a relação que se dá entre ambos existe por questões de obrigação. Assim, é bastante natural acreditar que, após nossa SOLTURA da escola – a analogia com o sistema penitenciário é extremamente intencional, apesar de falsa – estamos, enfim, livres para tomarmos controle sobre nossas próprias vidas.

o aluno não se importa com a escola principalmente porque ele não pediu por aquilo

Porém, acredito que o buraco é mais embaixo. Ou não tão fundo assim, dependendo da maneira como se encaram as coisas. Existe uma importância tremenda dentro da escola, mesmo nesse modelo meio quebrado e remendado que vivenciamos: as relações sociais que ela nos proporciona e como isso nos permite construir uma identidade própria. Você pode até argumentar que nunca extraiu nada de bom da escola porque não se relaciona de modo significativo com ninguém do ambiente escolar. Até nesses casos extremos verifica-se um encontro do seu eu interno, ao negar identificação com o ambiente externo – e esse é um tema sobre o qual eu precisaria me estender mais, quem sabe noutra oportunidade (e quando eu pensar mais a respeito, também).

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Além do mais, mesmo que você diga que o conhecimento da escola lhe é inútil – representado na famosa frase “pra que isso vai servir na minha vida?” – eu lhe digo duas coisas:

(a) Se não fosse pela escola, uma pessoa decidida a tornar-se, por exemplo, um advogado – carreira em que, supostamente, não se necessita conhecimentos profundos de física – jamais poderia entrar em contato com discussões que são inerentes a seu estudo: a caracterização da natureza, a necessidade humana de teorizar e modelar fenômenos para explicar as regularidades observadas, o sentimento de perplexidade frente aos “absurdos” de alguns fenômenos observáveis, entre outros.

(b) E, talvez mais importante: como você tem certeza do que fará ao longo da sua vida? Admito que, para alguns, seja bastante evidente que, seja lá o que for, não seguirá determinada carreira. (Isso ocorre, de modo geral, ao caracterizar-se as carreiras como “das humanidades”, “das exatas” ou “das biológicas”. O que, ao meu ver, é uma falácia lógica; eu, por exemplo, me formei em licenciatura em física (exatas) e trabalho majoritariamente com ensino (humanidades); como resolver esse impasse?) Mesmo nessas situações, ter contato com outras formas de representar o conhecimento humano é extremamente válido.

Pra que isso vai servir na minha vida? Como você tem certeza do que fará ao longo da sua vida?

Portanto, fechando toda essa ELUCUBRAÇÃO: não acredito que após a escola todas as coisas melhoram. Porque não vejo sentido em falar sobre algo “melhorar” nesse caso; seria apenas o encerramento de um ciclo e a abertura de uma nova etapa.

O que me leva à defesa e à crítica da segunda linha de pensamento: as coisas também não pioram após a escola, pelos mesmos motivos citados no parágrafo anterior. Minha crítica a esse modelo reside em alguns fatores primordiais:

Nem sempre você vai fazer “tudo o que quer da sua vida”

Isto é evidente, mesmo que não aceitemos. Se você já não fazia isso antes, o que garante que vá passar a fazer agora? Acho que quem tem espírito autônomo de verdade não necessita de situações perfeitas para exercer essa autonomia.

Mas você, certamente, tem, agora, a liberdade de seguir um caminho próprio. E ser feliz com esse caminho, fazendo seja lá o que for: sendo um empresário, um professor universitário, um artista liberal ou um pai/uma mãe dedicad@. A vida é feita dessas escolhas.

Nós não temos muitas certezas sobre o que “queremos” da vida

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Desde o momento em que nos percebemos como gente no mundo, que toma ações e sofre as consequências de suas escolhas, nos deparamos com um gigantesco oceano de possibilidades. Principalmente na fase de 16 a 20 anos, por se tratar do momento da Escolha. Acho bastante desumano obrigar alguém a escolher sua carreira para o futuro e, quando este bater a cara num muro concreto de realidade e desilusão, meter-lhe o dedo na fuça e chamá-lo de irresponsável. A escola poderia lhe oferecer esse leque de possibilidades. Mais do que isto, a escola geralmente tenta lhe dar esse suporte; mas estamos tão cegos e tão fechados no mundo das ideias invertidas, nas quais tudo o que vem da escola só pode ser ruim pois, afinal, a escola é inerentemente ruim, que não nos apercebemos disso e perdemos essa janela de oportunidades.

Evidentemente, seria muito leviano de minha parte acreditar que todo mundo tem muitas escolhas na vida e que todas elas têm um enorme potencial de sucesso; basta agarrá-las e acreditar nos seus sonhos! É óbvio que não. Algumas pessoas largaram na frente no jogo da vida; possuem mais opções de escolha, melhores condições de vida e uma estrada bonita pela frente. Outras, por motivos variados, de cunho sócio-histórico, não foram agraciadas com as benesses do mundo e possuem oportunidades mais reduzidas, adotando aquele que lhe parece o único caminho.

Em ambos os casos, contudo, a escola pode ser a peça chave desse quebra-cabeças. Ainda mais se tratando dos casos de classes sociais menos privilegiadas, pode ser uma mão amiga que muda a trajetória daquela pessoa.

Trabalhar pode ser chato

Trabalhar pode ser chato, penoso, desgastante. Lembro da fala de uma amiga escritora, durante a época em ministrava aulas, inclusive justificando os motivos que levaram seu desligamento da docência (os grifos são meus):

gosto de escrever. numa função administrativa sobraria talvez mais tempo para escrever e, principalmente, mais cabeça para escrever. mas que coisa estranha essa de viver para o tempo que sobra, não?

Isso, por si só, vai de acordo com o pensamento do “vai tudo ficar ruim demais, irmãozinho”. Mas, novamente, perspectiva: depende daquilo que você faz e como o faz. Não existe nenhuma solução pronta para nada nessa vida.

O que me leva aos próximos dois pontos.

A estranha relação entre o trabalho e a vida social

Há quase um consenso dizendo que, ou você trabalha (em alguns casos o estudo pode entrar no meio) ou você tem uma vida social. Eles parecem constituir-se de entes mutuamente exclusivos cujas existências não podem coabitar a sua vida.

Concordo que, muitas vezes, o trabalho ocupa a maior parte do nosso dia-a-dia – poderíamos voltar aquilo de “viver para o tempo que sobra”, mas não entremos novamente na mesma discussão. Nessas circunstâncias, acabamos por nos relacionar majoritariamente com as pessoas do nosso trabalho; o círculo profissional passa a ser, também, o círculo de amizades. E é complicado, às vezes, viver com o pessoal do trabalho, porque muitos de nós acabam discutindo o trabalho. O tempo todo.

(Reparem que isso, obviamente, varia para cada pessoa. Existem aqueles que conseguem separar as coisas e os que mergulham de cabeça numa só. Qual tipo se parece com cada um de nós?)

Por isso acho, novamente, que não é bem assim. É possível trabalhar intensamente e, nos momentos dedicados, ter boas relações de amizades/carinho/afeto com outras pessoas. Como em qualquer tipo de relacionamento, é importante saber fazer concessões, adequar-se, adaptar-se às circunstâncias. Você e seu amigo/amante precisam entender que cada um possui um diferente ritmo de vida e que ambos precisam adequar, vez ou outra, suas agendas de atuação. Se uma pessoa é incapaz de perceber isso, provavelmente ela não lhe será um bom acréscimo nessa vida.

Contudo, há outra ideia que me incomoda demais quando tratamos da aparente dicotomia entre trabalho e felicidade: a propaganda falaciosa e tendenciosa do LARGUE SEU EMPREGO E SEJA FELIZ VIAJANDO PELO MUNDO. Para não delongar excessivamente esse devaneio, recomendo a leitura de outros textos.

O professor é um ser antissocial?

Professores costumam brincar que só podem ter amigos e amantes professores: somente estes entendem, de fato, sua rotina. É verdade e não é.

De fato, o trabalho não ocorre somente entre os muros da escola. Existe muita coisa sendo feita em outros horários. Existe um sem-fim de atividades a serem exercidas pelo professor, em diversos momentos: planejamento da aula; montagem/preparo de recursos; seleção/criação de atividades; aplicação; análise; correções; reflexões sobre a prática e afins. Frequentemente os professores precisam fazer tudo isso em mais de uma escola para obter uma renda minimamente digna, visto que o salário de professor não é dos melhores. Por fim, em muitos casos, os professores conciliam a vida profissional com a vida acadêmica, realizando cursos de extensão, pesquisa, mestrado, doutorado et coetera. E aí: sobra tempo para algo?

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Decorre disso tudo que o professor acaba isolando-se num mundo próprio. Vive-se disso e para isso. Eu não sei dizer se é algo necessariamente ruim; pode parecer, mas talvez nem tanto. Digo somente por mim.

Desde o momento em que decidi me tornar professor, pouco antes de entrar na graduação, meu olhar sobre o mundo passou a se dar sob a ótica do ensino. Penso e respiro docência enquanto existo.

O que não significa, vejam bem, que tornei-me um alienado. Até mesmo porque sempre possuí outros interesses: literatura (tentei escrever por uns tempos, mas deixei de lado), música (tentei ser MUSIQUEIRO por uns tempos, mas deixei de lado), desenho (tentei ser webdesigner por uns tempos, mas deixei de lado), videogame (alguém sai comigo para jogar Pokémon Go?). Tirando a brincadeira do “deixar de lado”, é tudo verdade. Acho que ser professor é saber dialogar com diferentes frentes de pensamento. Por isso gosto tanto de discutir filosofia, política, estética. Não consigo me ver fazendo outra coisa.

Obviamente, o tempo que é disponível para dedicar-me a tais artes não é tão longo. Mas isso ocorre com muitas outras carreiras; tenho amigos advogados, médicos e empresários que poderiam dizer o mesmo (em maior ou menor escala, mas acho que isso pode ser discutido em outro momento, já que depende muito das atividades que cada um desempenha). O que permeou toda a minha discussão vale aqui, também: perspectiva. Depende das responsabilidades que o professor tomou para si naquele período letivo, dos seus interesses e do jogo que se faz entre ambos.

Concluindo, nada nessa vida é um dado pronto. Vai ver é essa, justamente, a graça da coisa toda: não sermos niilistas que descobriram, cedo demais, o sentido de estar vivo.

O poder da dúvida

Muitos estudantes, em momentos diversos, me questionam e se queixam que “não estão entendendo a matéria”. Eu lhes digo, então, que isso faz parte do aprendizado, que é uma etapa do processo e peço-lhes um pouco de calma. Porém, sinto nos olhares um sentimento misto de “não estou convencido” e “esse cara tá me enrolando”.

A minha falha, talvez, está em sempre responder a esta pergunta da mesma maneira, sendo que eu já sei, a priori, que ela constitui em uma resposta ruim. Ou, ainda pior: responder mais simploriamente a cada vez que me perguntam, por uma questão de fé abalada.

Pode ser um bom momento para sintetizarmos as principais ideias por trás dessas dúvidas, das perguntas que são feitas, das minhas tentativas de respostas e do processo de aprendizagem em si.

A dúvida é o primeiro sinal do entendimento

Imaginemos, para toda essa conversa, que você esteja numa aula de física do ensino médio (corro o risco de perder leitores por causa dessa proposta, mas sou um sonhador). Seu professor começou uma conversa inicial sobre movimento, perguntando a vocês se ele poderia ser algo eterno. Após ouvir algumas de suas considerações, contrapôs suas falas com ideias de outros pensadores já conhecidos do mundo científico, como René Descartes, segundo o qual o movimento é uma intervenção divina e, portanto, deve ser conservado infinitamente. Num momento posterior, seu professor discute outras ideias de outros pensadores, como Gottfried Leibniz, para o qual a coisa não é bem assim. Após muito devaneio mental, com alguns exemplos mais contemporâneos, consolida a visão científica atualmente aceita e define uma nova grandeza física, que alguns livros didáticos gostam de chamar de quantidade de movimento (ou momento linear). Alguns exemplos são mostrados na lousa, algumas fotos são exibidas no data-show e

— Professor?
— Diga.
— Eu… eu não entendi.
— Não entendeu exatamente o que?
— Erm… nada.

Não se pretende discutir, neste texto, o método do professor fictício supramencionado nem a interação professor-aluno que se faz em sala de aula, tampouco o modo como o professor perguntou “exatamente o que” o aluno não havia entendido. Vamos nos focar, pelo menos agora, na reflexão sobre a existência da dúvida.

Quando o aluno responde que “não entendeu nada”, podemos perceber que este ainda não tem nem sequer uma dúvida formulada em sua cabeça. Ele não sabe nem o que perguntar ao professor. O professor tampouco sabe como responder a este questionamento. Alguns param a aula, voltam e explicam tudo de novo, da mesma maneira, trocando umas palavrinhas aqui, outras acolá, gesticulam mais, dão mais ênfase, falam com mais carinho. Não funciona. Esse professor partiu do pressuposto que o aluno se perdeu em algum ponto, possivelmente por desatenção. E que, se explicar novamente, ele vai entender. Nem sempre o caso é este. Porque aquele aluno em questão ainda não tem formulada em sua cabeça uma pergunta.

É este o momento no qual muitas oportunidades são perdidas. O aluno, ao “não entender nada”, sente-se frustrado. Sente-se perdido, incapaz, com as capacidades cognitivas prejudicadas — ou, como a maioria gosta de resumir, sente-se burro — e se desliga por completo. Na cabeça do aluno, “essa aula não é pra mim, eu não sei física e nunca vou saber, quero matar o cara que inventou a física” e assim por diante. Quando manifesta-se ao professor, dizendo não entender nada, e o professor repete a explicação, a situação não mudou. Ele continua não entendendo absolutamente nada. O professor, então, pergunta “entendeu agora?”, ao que o aluno balança a cabeça, dizendo “sim, sim…”. Todos sabemos que isto não é verdade.

Não quero fazer neste texto um discurso motivacional. Não é post de auto-ajuda. Não vou bater na tecla que qualquer coisa pode ser pra qualquer um, até mesmo física. Ou filosofia. Ou semiótica. Ou o que quer que seja. Pelo menos não agora.

O propósito agora é defender que, enquanto não houver uma pergunta formada em sua cabeça, ainda não há o começo de um entendimento. É como se você ainda não estivesse partilhando da mesma conversa que está sendo instalada em sala de aula. Neste caso, você precisa dar-se um pouco mais de tempo e ver de que raios aquele professor está falando. Somente com as suas próprias perguntas é que você vai construir um significado próprio para as outras coisas. A dúvida é, sim, uma manifestação de entendimento; é, portanto, algo desejável e que não deve ser evitada. Então é necessário dar-se oportunidades de fazer perguntas a si mesmo.

No meio do caminho, faça-se uma pergunta

Passado aquele momento inicial de fuck this shit, no qual você aceitou a dúvida para si e resolveu comprar a briga, chegamos ao momento em que uma pergunta de verdade pode te aparecer. Por exemplo:

— Professor?
— Oi.
— Mas porque “massa vezes velocidade”?

Reparem que essa é uma pergunta bastante diferente da primeira — e uma bastante difícil de se responder, por sinal! É uma dúvida genuína, um questionamento próprio do aluno, um entrave na construção de um significado.

Enquanto não houver uma pergunta formada em sua cabeça, ainda não há o começo de um entendimento

E é, ao mesmo tempo, o que proporcionará entender, de fato, as coisas. Porque perguntar-se algo deste tipo pode significar que o aluno está partilhando das ideias discutidas em sala de aula. Ele faz parte do jogo. Ele é uma peça importante no desenvolvimento daquela aula. Sem sua pergunta, a aula não faz sentido, tanto para si quanto para os outros.

Fazer-se perguntas, portanto, é um elemento desejável. Apenas para fins de ilustração, gostaria de compartilhar uma experiência pessoal. Estive realizando, neste primeiro semestre de 2014, uma disciplina com o professor Marcelo Giordan Santos, versando sobre caracterização da aprendizagem em sala de aula. Antes de cada aula, algumas leituras eram sugeridas e, baseando-se nestas, havia uma proposta: elaborar uma questão sobre aquilo que se leu. Não uma pergunta trivial, calcada em definições e nomenclaturas — por exemplo: “O que é um Movimento Retilíneo Uniforme?” — mas uma questão de ordem pessoal, uma dúvida sua a respeito do texto que valeria ser externalizada e compartilhada com os colegas — seguindo o mesmo exemplo anterior: “Por que estudamos movimentos retilíneos uniformes se eles são tão raros na natureza?”.

Isto é algo incrivelmente difícil de se fazer. Porque elaborar uma questão sobre algo que você não entendeu simplesmente não faz o menor sentido. Essa proposta, além de ser desafiadora e motivadora, servia como parâmetro de análise: permitia verificar se, ao final das leituras, algum entendimento havia surgido e, caso contrário, quais medidas poderiam ser tomadas (geralmente: ler novamente).

Elaborar uma questão sobre algo que você não entendeu simplesmente não faz o menor sentido

Em última análise: tente fazer perguntas a si mesmo. Verifique se o conhecimento que está sendo partilhado lhe faz sentido ao elaborar um questionamento válido sobre aquilo.

A resposta nem sempre será satisfatória. Algumas perguntas são razoavelmente simples de se responder no contexto e momento em que são feitas. Outras, infelizmente, não, porque demandam um contínuo processo de discussões e interpretações diversas, antes de se chegar no ponto desejado.

No fundo, todas as boas perguntas são assim. O que pode ser muito frustrante. E o que me leva a lhes dizer duas coisas:

Seja paciente

Responder às perguntas demanda tempo. Não estou me referindo às perguntas que o aluno faz para o professor, tampouco somente às respostas que este pode fornecer. O âmbito agora é maior: responder àquelas perguntas que nós nos fazemos demanda muito tempo. O barato da coisa está aí: viver nesse processo contínuo de pergunta e tentativas de resposta.

Não é porquê você não entendeu de primeira, ou porquê você não consegue elaborar boas perguntas, ou porquê tudo parece muito difícil que você vai simplesmente largar mão. Nessa vida nada é 100%. Nessa vida nada é imediato.

O conhecimento não é algo fechado

Já disse em algumas ocasiões que o conhecimento científico tem fronteiras relativamente bem demarcadas. Existem perguntas que não sabemos responder porque a) ainda não sabemos responder ou b) nunca saberemos responder. O primeiro tipo refere-se àquelas perguntas que demandam um alargamento do nosso conhecimento científico. Necessitam de uma maior capacidade de reflexão do Universo à luz da ciência e, portanto, do desenvolvimento de novas ideias, teorias, modelos. Já o segundo refere-se a perguntas que não pertencem ao domínio da ciência; geralmente perguntas do tipo “por quê as coisas são assim?”. Isto não cabe à ciência. Ela pode te descrever como as coisas são, mas explicar seus porquês, não.

Assim, é importante, também, saber classificar a pergunta que estamos nos fazendo. Verificar se elas estão no âmbito científico ou filosófico. Em alguns casos, poderiam se caracterizar como filosófico-científicas; perguntas do tipo “o que é a vida?”, se referindo ao seu caráter ontológico, ou “o quanto da ciência depende da cultura?”, baseando-se num caráter epistemológico, seriam alguns exemplos. Quaisquer perguntas destes tipos demandam numa resposta aberta, inconclusiva, impermanente. Saiba diferenciar os domínios de suas perguntas e seja uma pessoa menos triste.

O conhecimento, não sendo fechado, nem estático, permite esse continuum de perguntas e respostas. Até mesmo porque, tendo respondido tudo, o que nos resta?