Sobre a partida

Imagem de capa: Jeremy Geddes, “Ascent” (2014), óleo sobre tela.

(Originalmente publicado em alguma rede social)

“o mestre gira o globo
balança a cabeça e diz
o mundo é isso e assim
livros alunos aparelhos
somem pelas janelas
nuvem de pó de giz”
— Paulo Leminski

Há um bom tempo uma ideia ronda a minha cabeça. Eu chamo de ideia por falta de uma palavra mais apropriada – um pensamento, um algo abstrato, uma massa disforme sem muita coerência começo meio fim. Mas como toda delonga um dia finda, me parece oportuno tentar compartilhar este devaneio e, quem sabe?, deletar um item do arquivo crises.txt. Economizar na terapia é preciso.

Direto ao ponto: eu não sei lidar com a partida. Não sei me despedir. Não encaro muito bem a ideia de uma perda, qualquer seja ela, talvez pela negação da existência que ela carrega consigo. Como se o fato de algo chegar ao fim implicasse em dizer que seu efeito é o mesmo que teria sido obtido se aquilo nunca tivesse existido.

Labent
Jeremy Geddes—”Labent” (2014), óleo sobre tela

É, eu sei. É uma ideia bastante idiota. E incoerente. Mas.

Geralmente as pessoas se referem a perdas na morte de um parente; no término de um relacionamento; no encerramento de um emprego. E assim por diante. E eu não quero soar [ainda mais] dramático em colocar no mesmo patamar as despedidas necessárias quando um ciclo chega ao fim. Por exemplo, quando vejo os alunos indo embora para suas novas velhas vidas sem nenhuma participação minha mais. Aquilo faz parte do vínculo que estabelecemos, é sabido desde o início e, mais importante, é necessário. Porque a ideia de um “bom” professor é tornar o aluno capaz de não precisar mais dele.

A ideia de um “bom” professor é tornar o aluno capaz de não precisar mais dele

Eu queria ter me despedido de vocês. Em vários momentos da minha vida. Chegar na sala de aula, encostar na mesa e dizer-lhes para abraçar o mundo. Que mais uma fase começa, como tantas outras já vieram e tantas mais ainda virão. Dizer que essa vida é um saco, mesmo, mas não precisa ser assim. Dizer que vocês não são especiais – porque o mundo é cruel com aquele que se julga importante demais. Dizer que vocês não são perdedores – porque o mundo se alimenta dessa fraqueza de espírito e vai carregando pessoas por aí feito uma onda lamacenta. Dizer que vocês já sabem dessas coisas todas, eu já sei dessas coisas todas, mas ao mesmo tempo não sabemos de quase nada. Tenho colegas que são bem melhores nisso e deixo para eles essa tarefa inglória.

Jeremy Geddes—’A quiet heaven’ (2014), óleo sobre tela

E nessas de não saber nada aprendi um capinzal de coisas com todos. Aprendi que aquela pedra preta de gelo duro que eu dizia haver no peito não passava de uma fenda que nunca enganou ninguém. Um buraquinho que a gente foi preenchendo com uma série de ideias, frustrações, tentativas, avanços, retrocessos. Por mais que eu não seja uma pessoa de esperanças, ambições e tudo o mais, acho que aprendi a adotar alguns de seus ideais e levar a vida junto.

O mundo é cruel com aquele que se julga importante demais

Vejam: nunca pretendi adotar qualquer discurso sobre o que é a vida lá fora. Exceto quando divaguei verborragicamente em linhas parecidas. Confesso que gostaria de ser aquela pessoa capaz de lhes dizer coisas inspiradoras. Sobre o sucesso, sobre a realização profissional, sobre a felicidade, sobre a Vida de Verdade. Mas seria um pouco falso de minha parte. E pretensioso. Como se eu fosse o detentor de algum conhecimento elevado que essa minha “experiência” permitiu concluir.

Isto tudo pode acontecer. Tenho uma convicção de que acontecerá. Conheço o potencial da grande maioria de vocês e sei que serão capazes de montes de coisas. Para não cair no discurso vazio do “você consegue”, digo-lhes, enfim: sejam honestos. Acima de tudo, consigo mesmos. Busquem alguma coisa que vocês queiram. Busquem querer coisas. Porque, se aprendi algo nesta minha ~longa trajetória de vida~ é que é muito difícil querer coisas. A gente quer tudo, ao mesmo tempo em que parece não ter forças para nada.

Acima de tudo: permitam-se errar. Errar é preciso, é necessário, faz parte do processo de aprendizagem. Esta é, talvez, uma das lições mais importantes que a escola pode te dar. Não sei se consegui ensiná-los isto e dessa forma, mas era uma das grandes pretensões. E sei que demonstro, muitas vezes, agir de maneira contraditória, uma vez que também não sei lidar direito com meus erros; o que significa que eu continuo aprendendo.

Jeremy Geddes—’There is glory in our Failure’ (2014), óleo sobre tela

Minha bagagem só cresce com o tempo. É recheada de conversas, aprendizados, ensinamentos, novas pessoas e, obviamente, piadas internas. Muitas piadas internas. Tantas que torna-se impossível — para não dizer chato — redigir uma lista  de tudo o que se passou até o momento. Porque o professor Pedro é um vacilixo, que pensa tocar bateria mas na verdade apanha musicalmente pra aluno em festival escolar. No final do ano letivo, ameaça estudantes com uma paródia de Gandalf, dizendo: você não vai passar. É incontável o número de montagens e fotos fora de contexto espalhadas pela internet, geralmente relacionadas com seus cabelos, seu mal-humor diário ou a falta de dicção para pronunciar palavras simples, tais como “aceleração” e “proporcionalidade”. Para mostrar como não tem personalidade, basta reparar no óbvio ululante: copiou Wesley Safadão — e tentou cantar isto frente a uma plateia atônita e levemente envergonhada. Não fosse o suficiente, chegou a forjar seu próprio sumiço, deixando preocupados até os pais de alguns alunos, que ofereceram ajuda policial e consultoria com detetive particular — e era só mais um plano para engrandecer uma atividade escolar. Então, realmente, fica difícil montar uma lista frente a essa enxurrada de vacilo.

Minha vida é uma Escolinha do Professor Raimundo eterna.

Provavelmente eu não verei mais boa parte de vocês. Talvez nos cruzemos na rua, num parque, num shopping. Porque é isto que a vida é, e é assim que deve ser. Se eu pudesse dar a “última aula”, ela teria duração de alguns minutos e consistiria numa mensagem bastante simples: tenham certeza de que lembrarei de vocês. E espero que algum dia vocês tropecem num fiapo de memória distante daquele professor cabeludo magrelo barrigudo estranho de barba de bode que faz barulho esquisito porque não controla uma sala com 87 alunos e gosta de desenhar na lousa em momentos aleatórios e precisa dar aulas apertando uma bolinha terapêutica para controlar o stress evitando assim o famoso processinho. Ou quaisquer outras lembranças que vocês quiserem.

Porque haverá um monte delas. Nem todas serão importantes. Ou relevantes.

Mas todas elas serão verdadeiras.

Um abraço. Um aperto de mão. Um sorriso.
E até breve, amig@s.